sábado, 20 de março de 2010

Maquiando a Educação: a máfia dos cursinhos

Meu artigo publicado no portal da UNE e da UBES:


Por Lindinaldo Freitas de Alencar

Quem anda pelas principais ruas de Maceió já deve ter se espantado e até acostumado com anúncios espalhados em cartazes, faixas, e outdoors de cursinhos dizendo: “Conclua seu 2° Grau em três meses”. Outros ainda mais atraentes, prometem a conclusão em dois e até um mês, estão sempre acompanhados da frase: “autorizado pelo MEC”. Bom, parece ser bem melhor passar três ou até um mês estudando ao invés de três anos para concluir o ensino médio. Mas como isso funciona? Terão realmente esses cursos rápidos condições de cumprir os objetivos do ensino médio? Será essa a verdadeira preocupação desses cursos?

Na realidade, esses cursos não passam de “preparatórios” para as provas de Supletivo. Para quem entra nesses cursos parece simples, a pessoa se inscreve, paga uma mensalidade, tem aulas durante três meses no máximo e faz uma prova em outro estado. Depois é só receber o certificado de conclusão. O que os cursos fazem é inscrever seus “clientes” em Supletivos em outro estado, durante os três meses “ensinam” de forma extremamente mecanicista o que é necessário para passar na prova. A preocupação não está em o estudante aprender determinados assuntos, mas em que ele consiga responder as questões da prova.

Para funcionar eles necessitam da autorização do órgão normativo do sistema de ensino estadual, o Conselho Estadual de Educação. Como o conselho de Alagoas não concedeu licença a nenhum desses cursos, eles funcionam aqui com licença de Conselhos de estados vizinhos, principalmente Sergipe e Paraíba, e aí é que o esquema se exacerba. Quando chega o dia da prova levam os estudantes para o estado onde possuem autorização para fazerem a prova e onde também é emitido o certificado de conclusão do 2° grau. Não é que o Ministério da Educação autorize esses cursos funcionarem, é que a organização da educação brasileira não centraliza suas ações no ministério, sendo atribuição dos Conselhos Estaduais de Educação normatizar e fiscalizar seus sistemas de ensino.

Em um estado onde as taxas de analfabetismo são gritantes, onde é alarmante o numero de pessoas que não concluíram o segundo grau, e cada vez mais se faz necessário aumentar a escolaridade para se ter maior competitividade no mercado de trabalho, esses cursos veem nessa realidade não motivos para fortalecer e construir uma educação de qualidade, muito pelo contrario, enxergam um imenso campo de mercado em que podem faturar com as necessidades do povo.

O supletivo deve ser um instrumento para que aqueles que não concluíram o segundo grau, mas adquiriram conhecimentos gerais e possuem uma idade já avançada possam superar essa etapa e continuar sua formação. Não deve ser uma ferramenta para enriquecer ainda mais aqueles que fazem da educação uma mercadoria e não tem o menor comprometimento com a educação e com o desenvolvimento nacional.

Ensino Médio sem Identidade

Outro debate surge a partir dessa problemática. Esses cursos têm atraído um grande número de jovens entre 18 e 20 anos. Além da necessidade de entrar o quanto antes no mercado de trabalho, a falta de uma identidade do ensino médio afasta esses jovens das salas de aula, afinal ao invés de passar tanto tempo na escola sem perspectiva alguma, é bem mais fácil concluir rapidamente “o mesmo” ensino médio.

O ensino médio tem muitos problemas e grandes desafios. Está ainda atrofiado pelo vestibular, apesar dos recentes avanços com o Novo Enem, e distante dos anseios da maioria da juventude sem apresentá-la perspectivas para o seu desenvolvimento. Está na ordem do dia a construção da identidade do ensino médio pautada pela Educação para o Trabalho.

Estamos antes de tudo passando por um momento de grandes avanços na educação. As possibilidades que nos são apresentadas com a Conferência Nacional de Educação, além da necessária continuidade em 2010 de um projeto avançado de nação, não nos permitem retrocessos na transformação da educação, como representam esses cursinhos de três, dois, um e zero meses.

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Ex-diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e ex-presidente da União da Juventude Socialista (UJS) de Alagoas. Atual militante e presidente do Comitê Municipal de Maceió do Partido Comunista do Brasil, PCdoB.
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