terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Augusto Buonicore: Chacina da Lapa, para não mais esquecer


Essa semana, mais precisamente no dia 16, faz 35 anos do episódio que ficou conhecido como a chacina da Lapa. Amanhã, dia 14, por iniciativa do vereador por São Paulo, Jamil Murad, será realizado um ato na Câmara de Vereadores em homenagem aos heróis assassinados por agentes da repressão, os três dirigentes do PCdoB - Ângelo Arroyo, João Batista Drummond e Pedro Pomar.

A chacina da Lapa foi uma tentativa da ditadura de acabar com o Partido Comunista do Brasil, aproveitando da reunião do seu Comitê Central em uma casa na Lapa, a repressão prendeu, torturou e assassinou vários dirigentes comunistas.

Em 2006 o historiador Augusto Buonicore escreveu um emocionante artigo por ocasião dos 30 anos da chacina. Reproduzo o texto aqui no Blog, trata-se de uma leitura obrigatória para aqueles que sonham com um Brasil mais justo e soberano e que não podem deixar com que paginas importantes da nossa historia se percam na memória.



*Por Augusto Buonicore

“Comunico-lhe que o seu PCdoB acabou". Esta frase dita por um policial-torturador ao dirigente comunista Haroldo Lima um dia após a sua prisão mostra bem o nível de arrogância dos agentes da ditadura militar. Os fatos, porém, pareciam confirmar aquele trágico anúncio. Um jornal do dia 17 de dezembro, ecoando a opinião do regime discricionário, também estampava: "O PCdoB foi destruído". Esta não seria a primeira vez que frases como estas seriam pronunciadas e impressas com destaque na grande imprensa. 

No Brasil de Geisel ainda se tortura e se mata

No dia anterior, 16 de dezembro, numa verdadeira operação de guerra, os órgãos de segurança haviam invadido uma casa modesta - localizada na Rua Pio XI, nº. 767 no bairro da Lapa em São Paulo - e assassinado friamente dois dos mais importantes dirigentes comunistas brasileiros: Pedro Pomar e Ângelo Arroyo. Poucas horas antes outro dirigente, João Batista Drummond, havia sido morto durante uma sessão de tortura no DOI-CODI paulista. A versão mentirosa da ditadura foi que Ângelo e Pedro haviam resistido à prisão e que João Batista havia sido atropelado ao tentar fugir da polícia. Este foi o último massacre de militantes de organizações da esquerda que combatiam a ditadura. 

Apesar de sua importância para a história brasileira, este acontecimento é ainda pouco conhecido. Tornou-se quase um senso comum a idéia de que o último assassinato político cometido pelo regime militar foi o que vitimou o jornalista Wladimir Herzog, em 23 de outubro de 1975, ou o que atingiu o operário Manoel Fiel Filho, morte ocorrida nas mesmas condições menos de três meses depois. 

Os assassinatos destes dois militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ocorridos cerca de um ano antes do trágico acontecimento da Lapa, tiveram grande repercussão e desencadearam protestos de amplos setores da sociedade brasileira e no exterior. O escândalo levou a demissão do comandante do II Exército, General Ednardo Mello. Este representava o setor mais truculento do regime e se opunha à “abertura lenta, gradual e segura" apregoada pelo general-presidente Ernesto Geisel. Ednardo foi substituído pelo general Dilermando Monteiro, considerado um membro da ala liberal do regime. 

Para muitos, esta mudança de comando teria consolidado a transição para a democracia e posto um fim ao terrorismo de Estado, iniciado em abril de 1964 e radicalizado com a promulgação do AI-5 em dezembro de 1968. No entanto, a Chacina da Lapa seria um duro desmentido a esta tese. No Brasil de Geisel e Dilermando ainda se torturava e se matava aqueles que ousavam a desafiar o poder militar. Foi durante este governo, por exemplo, que foram assassinados os últimos guerrilheiros do Araguaia e iniciou-se a operação de extermínio da direção do PCB. 

Entre nós um traidor

A casa onde se reunia a direção nacional do Partido Comunista do Brasil, somente pode ser descoberta graças à colaboração de um traidor chamado Jover Telles. Este era membro do Comitê Central e havia sido preso pouco tempo antes e concordou em colaborar com os órgãos de repressão na captura dos seus camaradas de partido. 

Um agente da repressão confirmou que Jover foi preso no Rio de Janeiro três meses antes e havia decidido colaborar no desmonte da direção partidária “em troca de bom tratamento e emprego para ele e sua filha na fábrica de armas Amadeo Rossi, no Rio Grande do Sul”. Em 1996, Jover foi candidato a vereador pelo PPB de Paulo Maluf na pequena cidade que, ironicamente, chamava-se Arroyo dos Ratos.


Conforme foi revelado no livro “Operação Araguaia: os arquivos secretos da guerrilha” de Taís Morais e Eumano Silva, no dia 8 de dezembro Jover Telles deu um depoimento cordial aos órgãos de repressão e no dia 11 se apresentou tranquilamente no ponto onde seria pego para ser transportado ao local no qual ocorreria a reunião da Comissão Executiva do PCdoB. Esta se realizou entre os dias 12 e 13 de dezembro e no dia seguinte teve início a reunião do Comitê Central. 

Mesmo sabendo que a casa estava cercada e que os membros da direção comunista poderiam ser presos e até mortos, ele calmamente participou de toda a reunião e durante os debates ainda se colocou entre aqueles que mais duramente criticaram a experiência armada ocorrida na região do Araguaia, considerando-a foquista.

Em 15 de dezembro, quando os participantes da reunião começaram a abandonar o local, sempre conduzidos pela dirigente Elza Monnerat e o motorista Joaquim Celso de Lima, o cerco policial se fechou e tiveram início as prisões, torturas e o frio extermínio dos líderes comunistas. Foram aprisionados, e depois barbaramente torturados, cinco membros do Comitê Central, Elza Monnerat, Aldo Arantes, Haroldo Lima, Wladimir Pomar, João Batista Drummond, além de dois militantes: Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade. José Novaes, que teve a sorte de sair junto com Jover Telles, foi o único participante da reunião, além do traidor, que não foi preso. Se apenas Jover escapasse ileso atrairia a atenção sobre ele. 

Na manhã do dia 16 de dezembro iniciou-se o derradeiro ataque contra a casa na qual ainda se encontravam dois membros do Comitê Central: Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Segundo testemunhas, eles estavam desarmados e não foi lhes dado nenhuma chance de defesa. A repressão chegou atirando. O corpo de Pomar tinha cerca de 50 perfurações de bala. 

A polícia política remontou a cena do massacre, colocando armas ao lado dos corpos inermes, e divulgou a falsa versão de que eles haviam sido mortos durante um intenso tiroteio. Já em plena abertura política, a maioria dos órgãos da grande imprensa vendeu a versão oficial, sem grande contestação. 

Cerco e aniquilamento 

Nesta operação policial-militar, a repressão também pretendia assassinar João Amazonas, como se depreende da entrevista de Dilermando Monteiro, publicada em 13/12/1978 na revista ISTO É. Nela o general afirmava: "Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia, mas para nós ele estaria presente naquela reunião".

Pedro Pomar deveria ser o membro da direção que viajaria para China e Albânia para informar da derrota da guerrilha e participar do congresso do PTA. Mas, a doença de sua esposa o fez trocar de lugar com João Amazonas. A viagem não planejada, e nem desejada, salvou Amazonas de uma morte certa. Estes dois dirigentes comunistas iniciaram sua amizade e militância em Belém do Pará, ainda na década de 1930. Foram deputados federais e responsáveis pela reorganização do Partido no final do Estado Novo e no início da década de 1960, quando houve a grande cisão do movimento comunista brasileiro. 

Em 1976 o PCdoB era a única organização revolucionária clandestina que ainda se mantinha minimamente organizada, com uma direção nacional que conseguia se reunir periodicamente e um jornal, A Classe Operária, que circulava com certa regularidade. Para os generais era preciso primeiro limpar o terreno político da presença indesejável das organizações de esquerda, especialmente comunistas, para depois implantar o seu modelo de democracia, restrita e elitista. 

A repressão, depois de destroçar as organizações que promoveram a guerrilha urbana, partia para desmantelar o Partido que realizara o principal movimento guerrilheiro contra a ditadura militar: a Guerrilha do Araguaia. Entre dezembro de 1972 e março de 1973 foram assassinados os dirigentes comunistas Carlos Danielli, Lincoln Cordeiro Oest, Luiz Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. Nos anos seguintes, entre 1974 e 1975, tombaram Ruy Frazão e Armando Frutuoso. Todos morreram na tortura. O ódio dos generais reacionários contra o Partido que havia dirigido a experiência guerrilheira no Araguaia era enorme. Destruir o PCdoB era o sonho obstinado desses senhores, um sonho que parecia ter se realizado naquela manhã de 16 de dezembro de 1976. 

A notícia do crime correu o mundo e ocorreram várias manifestações de protestos em vários países. Destaca-se a moção do PC da China e do Partido do Trabalho da Albânia. Em Portugal ocorreu um grande ato que reuniu milhares de pessoas em repúdio ao massacre da Lapa e exigindo a liberdade dos presos políticos. Um manifesto com 40 mil assinaturas também foi entregue ao embaixador brasileiro em Lisboa. A mais bela homenagem foi a música Sangue em Flor, composta em homenagem aos mártires da Lapa. Na sua última estrofe dizia: “Onze vidas na prisão/Com planos de justiça e pão/ Nas mãos sangrentas da tortura/ Não há sol na ditadura/ Nem sangue que vença a razão”.

Tal qual a Fênix

Passados 30 anos o sonho das elites conservadoras se transformou num pesadelo. O Partido Comunista do Brasil não só sobreviveu como se fortaleceu. Menos de dois anos depois do massacre, em 1978, o Partido já estava reorganizado e realizava a sua VII Conferência Nacional. Ela armaria, teórica e politicamente, o PCdoB para participar e influir nas grandes lutas populares e democráticas que eclodiriam no país nos últimos anos da década de 70 e início da década de 80. O Partido teve participação destacada na luta contra a ditadura militar, pela Anistia, contra a carestia, em defesa dos direitos sociais dos trabalhadores, pelas Diretas já! e pela vitória do candidato único da oposição no Colégio Eleitoral. Em 1985, com o fim da ditadura militar, conquistou sua legalidade. Milhares e milhares de trabalhadores e estudantes viriam engrossar as fileiras do Partido dos mártires do Araguaia e da Lapa. 

Hoje, os militantes do PCdoB estão à frente das duas maiores entidades estudantis do país - a UNE e a UBES - e dirigem a Confederação Nacional de Associações de Moradores (CONAM). Dirigem importantes sindicatos e têm ampliado o seu espaço na Central Única dos Trabalhadores, na qual tem a vice-presidência. 

Mas, o PCdoB não tem apenas uma significativa influência no movimento social, ele progressivamente ganha espaço no parlamento e nas várias instâncias do poder executivo. Exerce importantes responsabilidades nas instituições da República, a exemplo da presidência da Câmara dos Deputados, com o deputado Aldo Rebelo, e do Ministério do Esporte, com Orlando Silva Junior. Nas eleições de 2006 para o Congresso nacional, o PCdoB elegeu uma bancada de 13 deputados federais e um senador da República, o cearense Inácio Arruda – acontecimento que só foi observado em 1945, quando da eleição de Luís Carlos Prestes. O PCdoB tem ainda vários prefeitos, inclusive o de Aracajú, secretários estaduais e municipais, parlamentares nas Assembléias Legislativas e cerca de três centenas de vereadores espalhados por todos os estados brasileiros.

O X congresso do PCdoB, realizado em outubro de 2005, afirmou em alto e bom som que o PCdoB vive, floresce e se capacita cada dia mais para ser uma das forças dirigentes do processo de transformação social que o Brasil tanto necessita. Ele reuniu mais de mil delegados representando 70 mil militantes. Nele, estiveram presentes 45 organizações comunistas e progressistas de todas as partes do mundo. Isto mostra o prestígio internacional angariado pelo Partido nestas últimas décadas.

Este Congresso foi uma prova viva de que os homens e mulheres que pertenceram a esta organização e morreram defendendo a democracia, a soberania nacional, os direitos sociais dos trabalhadores e o socialismo continuam vivos no coração de cada militante da causa social e são motivos de orgulho do nosso povo. Quanto àqueles que os prenderam, os torturaram e os assassinaram estão “mais mortos que os próprios mortos” e são obrigados a viver nas sombras. Seus nomes não podem nem mesmo serem pronunciados. Pelo contrário, ao chamado de cada nome dos heróis da Lapa e do Araguaia, responderemos sempre e em uma só voz: Presente!

*Augusto César Buonicore é historiador e membro do Comitê Central do PCdoB
domingo, 11 de dezembro de 2011

A UBES Somos Nós!

Plenário do 39° CONUBES


No inicio deste mês aconteceu na cidade de São Paulo a 39º edição do congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Elegemos a nova presidente da entidade, a pernambucana Manuela Braga, e aprovamos as proposições dos estudantes secundaristas a cerca da educação e diversos temas. Convocamos a jornada de lutas do mês de março do ano que vem e o movimento que já se tornou vitorioso: #OcupeBrasilia.

A UBES é uma entidade, que como já foi dito em outros momentos, necessária ao Brasil, sua historia de lutas e dedicação a este país passa pelos principais momentos da vida política nacional. Uma entidade que representa mais de 50 milhões de pessoas, que não tem nenhum espaço nos grandes meios de comunicação e que é organizada e dirigida por jovens estudantes, na sua maioria com menos de dezenove anos de idade. Se não fosse a paixão que os estudantes brasileiros tem pelo Brasil e a vontade de mudar o mundo, com certeza a UBES nem existiria, pois o que faz da UBES ser uma entidade tão necessária ao nosso povo é que ela é construída pela militância, de diversas orientações políticas, e é a determinação da juventude de lutar por uma educação de qualidade e por um Brasil soberano que mantêm a UBES viva.

Participar da UBES é algo que marca para sempre a nossa vida. Existem várias formas de se ter um contato com a entidade: muitos participam de uma passeata, de uma palestra, do congresso ou de outro fórum; mais sem sombra de dúvida, aqueles que durante um tempo a constroem mais diretamente tem suas vidas marcadas de forma profunda. Digo isso, porque tive o privilégio de ser diretor da UBES em meu estado por três anos, fui eleito pela primeira vez na gestão presidida pelo carioca Ismael Cardoso e depois participei do primeiro ano da gestão que teve como presidente o manauara Yann Evanovick, acabei não terminando a gestão por inaugurar uma nova fase em minha vida quando ingressei no ensino superior.
Bandeira da UBES assinada por vários diretores da gestão que se encerrou esse ano
Foi um Presente que demos ao Ismael Cardoso, na posse da Gestão que o Yann presidiu

Sempre que encontro ex-diretores da entidade, de outras décadas principalmente e que  hoje ocupam postos importantes na sociedade, as nossas conversas acabam por ir às lembranças de situações vividas por eles, muitas delas muito engraçadas. Afinal, depois de um tempo quando nos lembramos das adversidades passadas, de noites perdidas, da fome que se tinha e dos casos mais inusitados, não a outro remédio se não cair na gargalhada para esconder a saudade.

Diariamente tenho ligado para meus companheiros que estão em Brasília participando da 2º Conferência de Juventude e mantendo o movimento #OcupeBrasilia. A realização do seu maior congresso na década e a ocupação na capital federal mostram que a UBES e a UNE estão mais vivas do que nunca,  demonstra também que se depender da atual geração de jovens que tem dedicado suas vidas e o que possuem de melhor à luta dos estudantes, nós iremos comemorar muitas vitórias ainda para o nosso povo! Seja as mais imediatas como a aprovação do estatuto da juventude, os 10% do PIB e 50% do Pré-sal pra educação; seja a construção de uma nação forte e soberana, de um Brasil socialista!

Manuela Braga, nova presidenta da UBES


Meu abraço a todos lutadores da UBES e da UNE,

Sucesso Manuela Braga!
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

À quem me adotou: Parabéns Maceió!


Lembro-me como hoje do dia em que cheguei à cidade de Maceió, o ano era 1997 e eu acabará de completar meus sete anos de idade. A expectativa era muito grande para saber como era aquela tão falada cidade, da qual meu pai sempre ia a negócios mais eu nunca tinha visitado, nem ao menos tinha visto fotos ou qualquer menção, sabia apenas que era uma cidade grande.

Para quem cresceu no sitio a ideia de ir morar em uma cidade grande era assustadora, mas ao mesmo tempo me deixava curioso. Mesmo assim lembro-me que fui contra a mudança. Mas a opinião de uma criança de sete anos não podia influenciar nas necessidades econômicas do conjunto da família.

Assim que chegamos fomos direto para o bairro de Santa Lucia, moramos por oito meses lá. Foi a época em que mais fiquei sem ter o que fazer, pois perdi aquele ano letivo. Em seguida fomos morar no que hoje é o complexo Gama Lins, no conjunto Santa Helena, lá ficamos até 2006. Posso falar que no inicio vi muitos moradores terem seus barracos de lona destruídos e tirados de lá a força. Lembro que a nossa casa era a única de tijolo quando lá chegamos, era o Mercadinho Santa Helena. Vi os barracos se tornarem casas, vibrei quando o poço de água foi inaugurado, pode parecer besteira para alguns mais aquele sentimento de ter água na torneira era algo carregado com certo sentimento de liberdade, conquista.


Passei o final de minha infância e o inicio da adolescência nessa região de Maceió, nos primeiros anos sempre que tinha uma oportunidade corria para o sitio no interior de Pernambuco, mas aos poucos fui me apaixonando por essa cidade.

No ano de 2006 fui morar na minha cidade natal, Palmeira dos Índios, nela conheci e me filiei na União da Juventude Socialista, eu ainda não sabia que isso iria mudar a minha vida. Dois anos depois estava voltando pra Maceió cumprir tarefa, eu havia sido eleito diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas.

Hoje, depois de mais de três anos que voltei pra Maceió, sou de fato apaixonado por essa cidade que me adotou. Sou apaixonado não só por sua beleza natural, pela sua expressiva cultura popular, pelo seu povo humilde e trabalhador, mas também pela capacidade de se desenvolver e pelo potencial que dá à Maceió a possibilidade de ser uma cidade mais humana, que consiga diminuir e superar as imensas desigualdades que separam os moradores da sofisticada orla urbana dos que moram nos bairros populares.


Parabéns Maceió por seus 172 anos!

Viva o nosso Povo!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tempestade em Copo D'água?



Nos últimos dias tem circulado pela internet um vídeo com atores globais do “movimento gota d’água”. A idéia é difundir uma campanha contra a construção da Usina de Belo Monte, usando dos mesmos instrumentos que a Globo, esses “defensores” da floresta promovem na verdade uma campanha de desinformação em quê personalidades conhecidas não só por seus papeis na TV, mais também pelo papel que sempre jogaram contra o Brasil e a favor das grandes potencias, usam o cinismo para enganar nosso povo.

A usina de Belo Monte será a terceira maior do mundo em capacidade de geração de energia, ENERGIA LIMPA! O Brasil vive um novo momento político, em que se encontrou consigo mesmo e com o desenvolvimento, mas sem energia não há condições de nos desenvolvermos ainda mais, de acabarmos de fato com a miséria em nosso país e nos transformarmos uma nação forte e soberana.

Recomendo a todos os seguintes vídeos sobre o tema:

O primeiro é uma resposta em bom tom ao movimento dos artistas globais, no qual estudantes da UNICAMP desmascaram todas as mentiras e apresentam a importância da usina para o nosso país.


No segundo, temos diversos números e dados sobre a usina, trazendo elementos técnicos para o debate.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Fernando Morais: Os últimos soldados da guerra fria


Recentemente durante a realização da V Bienal Internacional do Livro, no centro de convenções de Maceió, assisti a palestra do escritor Fernando Morais, meu principal objetivo era o ouvir falar sobre sua obra “Os últimos soldados da guerra fria”, saí da palestra entusiasmado e comprei o livro.

Pouco tempo depois tinha devorado os 15 capítulos e as diversas informações que fazem dessa obra, em minha opinião, uma das mais importantes do autor. Bom, quero recomendar esse livro a todos e para dar uma melhor noção reproduzo aqui no Blog o mais recente artigo do também escritor Frei Betto sobre o tema e mais abaixo dois vídeos onde o próprio Fernando Morais nos fala sobre o seu livro.


Heróis condenados

*Por Frei Betto


"Os últimos soldados da guerra fria”, livro de Fernando Morais editado pela Companhia das Letras (2011), teria suscitado inveja em Ian Fleming, autor de 007, se este não tivesse morrido em 1964, sobretudo por comprovar que, mais uma vez, a realidade supera a ficção.

Suponhamos que na esquina de sua rua haja um bar que abriga suspeitos de assaltarem casas do bairro. Como medida preventiva, você trata de infiltrar um detetive entre eles, de modo a proteger sua família. A polícia, de olho nos meliantes, identifica o detetive. E ao invés de prender os bandidos, encarcera o infiltrado...

Foi o que ocorreu com os cinco cubanos que, monitorados pelos serviços de inteligência de Cuba, se infiltraram nos grupos anticastristas da Flórida, responsáveis por 681 atentados terroristas contra Cuba, que resultaram no assassinato de 3.478 pessoas e causaram danos irreparáveis a outras 2.099.

Desde setembro de 1998, encontram-se presos nos EUA os cubanos Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández e Ramón Labañino. O quinto, René González, condenado a 15 anos, obteve liberdade condicional no último dia 7 de outubro, mas por ter dupla nacionalidade (americana e cubana) está proibido de deixar o país.

Os demais cumprem pesadas penas: Hernández recebeu condenação de dupla prisão perpétua e mais 15 anos de reclusão... Precisaria de três vidas para cumprir tão absurda sentença. Labañino está condenado à prisão perpétua, mais 18 anos; Guerrero, à prisão perpétua, mais 10 anos; e Fernando a 19 anos.

Os cinco constituíam a Rede Vespa, que municiava Havana de informações a respeito de terroristas que, por avião ou disfarçados de turistas, praticaram atentados contra Cuba, contrabandearam armas e detonaram explosivos em hotéis de Havana, causando ferimentos e mortes.

Bush e Obama deveriam agradecer ao governo cubano por identificar os terroristas que, impunes, usam o território americano para atacar a ilha socialista do Caribe. Acontece, no entanto, exatamente o contrário, revela o livro bem documentado de Fernando Morais. O FBI prendeu os agentes cubanos, e continua a fazer vista grossa aos terroristas que promovem incursões aéreas clandestinas sobre Cuba e treinamentos armados nos arredores de Miami.

Em 15 capítulos, o livro de Morais relata como a segurança cubana prepara seus agentes; a saga do mercenário salvadorenho que, a soldo de Miami, colocou cinco bombas em hotéis e restaurantes de Havana; o papel de Gabriel García Márquez, como pombo-correio, na troca de correspondência entre Fidel e Bill Clinton; a visita sigilosa de agentes do FBI a Havana, e o volume de provas contra a Miami cubana que lhe foram oferecidas por ordem de Fidel.

"Os últimos soldados da guerra fria” é fruto de exaustivas pesquisas e entrevistas realizadas pelo autor em Cuba, EUA e Brasil. Redigido em estilo ágil, desprovido de adjetivações e considerações ideológicas, o livro comprova por que Cuba resiste há mais de 50 anos como único país socialista do Ocidente: a Revolução e suas conquistas sociais incutem na população um senso de soberania que a induz a preservá-las como gesto de amor.

Em país capitalista, para quem, graças à loteria biológica, nasceu em família e classe social imunes à miséria e à pobreza, é difícil entender por que os cubanos não se rebelam contra as autoridades que os governam. Ora, quando se vive num país bloqueado há meio século pela maior potência militar, econômica e ideológica da história, da qual dista apenas 140 km, é motivo de orgulho resistir por tanto tempo e ainda merecer elogios do papa João Paulo II ao visitá-lo em 1998.

Em mais de 100 países – inclusive no Brasil – há médicos e professores cubanos em serviços solidários em áreas carentes. O número de desertores é ínfimo, considerada a quantidade de profissionais que, findo o prazo de trabalho, retornam a Cuba. E a Revolução, como ocorre agora sob o governo de Raúl Castro, tem procurado se atualizar para não perecer.

Talvez este outdoor encontrado nas proximidades do aeroporto de Havana, e citado com frequência por Fernando Morais, ajude a entender a consciência cívica de um povo que lutou para deixar de ser colônia, primeiro, da Espanha e, em seguida, dos EUA: "Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana.”

*Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.


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Vídeos



terça-feira, 22 de novembro de 2011

O desenvolvimento do Brasil, sua história e seus desafios atuais



*Por Elias Jabbour

Intervenção feita durante seminário realizado em Ramallah, na Palestina, envolvendo as fundações Rosa Luxemburgo e Fuad Nassar (ligada ao Partido do Povo Palestino – PPP).

A dimensão territorial, a pujança econômica e a dimensão do mercado interno são apenas expressões de uma rica experiência – em matéria de desenvolvimento econômico e social – e que deve ser motivo de debate e discussão tanto no Brasil quanto no exterior. É uma honra sem tamanho estar partilhando um pouco desta experiência com os companheiros e irmãos de nossa querida Palestina e de representantes de outros países neste seminário. Neste sentido, gostaria de frisar, para os comunistas brasileiros a independência da Palestina é sinônimo do direito ao desenvolvimento e ao planejamento. Enfim, o “direito a vida” como algo que dá sentido ao próprio espírito militante patriótico e internacionalista.

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Após quase 25 anos de estagnação econômica, fruto de uma “crise de projeto” e de aplicações desastrosas de receitas neoliberais importadas, o Brasil reencontrou-se consigo mesmo. Um novo ciclo político iniciado com a ascensão de forças populares, patrióticas e democráticas ao governo nacional em 2003 recobrou o ânimo nacional, devolveu a autoestima ao nosso povo e colocou o Brasil de volta aos trilhos do desenvolvimento e da inclusão social. Esta tendência ganha força, contraditoriamente, com a eclosão da presente crise financeira. O mesmo país que teve de recorrer ao FMI por três vezes entre 1995 e 2003, passou a ser credor deste mesmo FMI e passou a jogar papel marcante nas relações internacionais e na própria democratização destas relações.

O patamar alcançado pelo Brasil nos últimos anos nos transformou em ator indispensável em um chamado “mundo em transição”. Mundo caracterizado por um lento declínio da hegemonia imperialista em detrimento de um maior destaque de países como o Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Expressão deste mundo pode ser notada na força adquirida do movimento pelo reconhecimento do Estado da Palestina e sua admissão num organismo de prestígio como a UNESCO. O mundo não é o mesmo de 20 anos atrás.

O que pouco se percebe é que o atual processo de desenvolvimento brasileiro é parte de um todo que envolve herança tanto de uma grande experiência de desenvolvimento vivido entre os anos de 1930 e 1980, quanto das próprias contradições geradas no período citado. Trata-se, também, da trágica experiência neoliberal que assolou não somente o nosso país, mas o mundo como um todo. O salto qualitativo brasileiro recente é parte de um conjunto que necessariamente envolve ricas experiências em curso na América Latina.

Uma economia diversificada e complexa
 
O Brasil pode ser descrito como um grande país em desenvolvimento. Com uma indústria de porte médio e uma agricultura altamente tecnificada. Seu tamanho territorial, diferentes recortes climáticos, abundantes recursos naturais e uma indústria ainda muito concentrada regionalmente conferem ao país um caráter complexo, quase único. Somos a sétima maior economia do mundo e segunda maior das Américas. Projeções de diferentes organismos internacionais demonstram, que mantidas as atuais taxas de crescimento (4% ao ano), que o Brasil ocupará o posto de quarta economia do mundo por volta de 2050.

Muito nos orgulha de sermos o país do samba e do futebol. Mas, não somos apenas isso. O Brasil desenvolve projetos e produz desde submarinos nucleares até aviões comerciais. Temos um projeto espacial em desenvolvimento e somos pioneiros na extração de petróleo em águas profundas e transformação de cana de açúcar em combustível para automóveis. Temos a segunda maior empresa estatal do mundo (PETROBRÁS) e em 2008, 39 companhias brasileiras estavam incluídas na lista Global 2000 da revista Fortune.

Nosso país transitou com muita rapidez na transformação da agricultura em uma atividade industrial com grande escala de produção. O Brasil é o segundo maior exportador de grãos de mundo. Além disso, produzimos carne bovina suficiente para abastecer toda a demanda internacional. A excelência brasileira nesta área não se encontra somente na dimensão de nossa produção agrícola. Inovações em matéria de crédito bancário e apoio estatal direto têm possibilitado a inclusão de quase um milhão de pequenos agricultores na divisão social do trabalho a partir de programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). O altíssimo nível alcançado por nossa ciência agronômica é fator de elevação da influência internacional do Brasil, sobretudo em países africanos onde nosso país executa convênios e parcerias para o fortalecimento da agricultura de países-irmãos mais pobres.

A extração mineral é outra grande fronteira de acumulação, sobretudo pelo fato de combinarmos a existência, em nosso território, das maiores jazidas de ferro do mundo com o fato de a maior empresa de extração mineral do mundo ser brasileira, a Companhia Vale do Rio do Doce. A descoberta de enormes jazidas de petróleo e gás natural no chamado pré-sal deve ser destacada, pois além de exportador de petróleo, poderemos nos tornar uma verdadeira potência petroquímica internacional, garantindo continuidade ao nosso processo de industrialização, o que requer a aplicação de novas e superiores formas de planejamento econômico e social.

Determinados parâmetros econômicos, com consequências políticas estratégicas, devem ser sublinhados no debate sobre a relação entre soberania nacional e desenvolvimento econômico. Acredito que a independência nacional tem expressões históricas. Historicamente a soberania nacional expressou-se, por exemplo, na implantação de uma indústria pesada. A atual crise financeira demonstra que os países que estão fazendo frente a esta conjuntura são caracterizados por possuírem amplos sistemas financeiros nacionais fortalecidos por uma política comercial planificada que privilegia o acúmulo de reservas cambiais. O Brasil possui um dos mais sofisticados e complexos sistemas financeiros do mundo que abarca um sistema estatal de financiamento da produção, além de mais de 150 bancos privados nacionais e estrangeiros operando no país e de um mercado de capitais de porte médio. Sob um ponto de vista particular, a implantação de um sistema nacional de intermediação financeira é uma grande conquista no rumo da plena soberania de qualquer país. Segundo Marx, “a economia monetária foi a maior invenção do capitalismo”.

A experiência brasileira em perspectiva histórica

A história do processo de desenvolvimento varia muito de um país para outro. As leis econômicas apesar de serem regidas por leis de essência universal tem em cada formação social uma forma específica de agir determinada por condições objetivas e subjetivas de cada país ou região. Por exemplo, nos Estados Unidos criou-se um tipo de propriedade agrícola extremamente favorável à produção ao autoconsumo e ao investimento de capital. Na Inglaterra, a Revolução Industrial se dá nos marcos da expropriação camponesa, levando a uma redução dos salários e – consequentemente – a uma maior competitividade da indústria inglesa.

Desde a sua “descoberta” em 1500 até a proclamação da Independência em 1822, o Brasil se transformou numa competente empresa comercial sob administração portuguesa exportadora de cana-de-açúcar e ouro e importadora de escravos. Abrindo parêntese, esta mesma lógica cíclica pode ser percebida no século XX, pois exportávamos produtos agrícolas e importávamos máquinas. Mas esta descrição de nossa colonização não é uma verdade absoluta. Sim, o comércio exterior por muito tempo foi a variável estratégica do desenvolvimento brasileiro. Mas um dinamismo interno precoce pode ser claramente perceptível, por exemplo, numa agricultura altamente dinâmica (já no século XIX), com uma competente produção de alimentos para o próprio mercado interno. O dinamismo econômico brasileiro também é produto da assimilação de outras culturas formadoras de nossa nacionalidade.

Impossível não colocar em relevo a variável, que se tornou estratégica, da cultura empreendedora alemã, japonesa e árabe. Assimilamos tanto a tenacidade típica do povo português e a criatividade e a capacidade de trabalho dos africanos, quanto do olhar empresarial estratégico europeu, asiático e árabe. Eis uma das particularidades brasileiras: somos um povo empreendedor e sagaz. 

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Porém a capacidade empreendedora de um povo só se transforma em força material quando o desenvolvimento passa a ser objetivo estratégico de um Estado Nacional. A crise de 1929 engendrou profundas mudanças no mundo e as mesmas se fizeram sentir com força no Brasil. A restrição externa criada pela perda de mercado para nossos produtos agrícolas (sobretudo café) foi a principal condição objetiva para a materialização do desenvolvimento industrial como política oficial do Estado Nacional brasileiro. A Revolução de 1930 liderada pelo estadista e patriota Getúlio Vargas criou as condições institucionais para que o Brasil adentrasse de fato no século XX. Para os comunistas brasileiros, a Revolução de 1930 tem caráter de salto civilizacional, somente comparada (em alcance estratégico) com a independência de 1822. Esta revolução burguesa marcou a derrota das forças políticas interessadas em manter o Brasil como uma mera nação agrária. Foi o momento em que o nacionalismo, como força política, se materializou sob a forma de luta pelo direito ao desenvolvimento e ao planejamento de nosso desenvolvimento.

O fato concreto resultante deste processo está no fato de o Brasil, ao lado da União Soviética e o Japão, foi o país que mais cresceu no mundo entre 1930 e 1980. Na verdade pode-se afirmar que o Brasil saiu da Idade Média em 1930 e adentrou na Idade Contemporânea em 1980. Em 50 anos percorremos o caminho que a Europa percorreu em 600 anos. Construímos as bases de um poderoso capitalismo de Estado, unificamos nosso mercado nacional. Construímos duas das maiores usinas hidrelétricas do mundo, transformamos a PETROBRAS numa empresa de ponta, construímos – com material fabricado no próprio país – o metrô mais moderno do mundo localizado na cidade de São Paulo e a nossa agropecuária tornou-se a mais dinâmica do mundo.

Para o Partido Comunista do Brasil, a história de nosso país não é uma teia de fracassos e revezes. Não alimentamos uma visão catastrofista de nosso passado nem tampouco somos pessimistas com relação ao futuro. Esta visão positiva do processo histórico da construção de nossa nação só é possível na medida em que temos plena consciência que esta mesma construção foi, e está, repleta de contradições. Contradições tais que se constituem no próprio motor do processo de desenvolvimento. A ordem de contradições deste processo é variada. Não percorremos o caminho clássico marcado por uma reforma agrária anterior à industrialização. O Brasil se industrializou sem prévia reforma agrária. A não realização de uma reforma agrária é a razão primária por ainda sermos um dos países mais desiguais do mundo. O Brasil do século XX passou por um brutal processo de urbanização. A crise do modelo “nacional-desenvolvimentista” e as “duas décadas perdidas” mostraram a face mais cruel do processo: crise de superpopulação agrária que se transformou em crise urbana; endividamento externo; crise social; altos índices de desemprego; altos índices de criminalidade; hiperinflação, dentre outros sintomas sentidos ainda hoje.

A contrarrevolução neoliberal e a ascensão de Lula

A “crise do modelo”, a grave crise social e a derrocada das primeiras experiências socialistas no início da década de 1990 abriram condições para um verdadeiro retrocesso político, social e econômico no mundo, na América Latina e também no Brasil. Forças políticas compromissadas com os desígnios do “Consenso de Washington” chegaram ao poder do Estado Nacional brasileiro com um discurso de “modernização”. Em perspectiva histórica trata-se de forças políticas antagônicas ao projeto vitorioso na Revolução de 1930. Trata-se de “agraristas” sob o manto de um discurso “globalizante” e com ares de “novo”. O economista brasileiro Ignacio Rangel definiu bem esta “nova ordem” ao apontar que a ascensão de Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin na URSS e a eleição de Fernando Collor de Mello no Brasil são expressões de uma “apostasia”, de uma “contrarrevolução”. E Fernando Henrique Cardoso foi a continuação radicalizada desta contrarrevolução que obteve resultados expressivos no “combate à inflação” e na “estabilidade monetária”, porém às custas de um retrocesso nacional e social sem parâmetros na história brasileira. Fernando Henrique Cardoso, não sem motivo, alcunhou o apelido “serial killer da juventude brasileira”.

Um extenso programa de privatizações, desregulamentação e ampla abertura de nossa economia foi aplicada. Como disse mais acima, durante mais de 10 anos era muito normal o Brasil pedir socorro ao FMI que por sua vez respondia com empréstimos sob condicionalidades que significavam um peso insuportável para o povo brasileiro. O colapso dos serviços sociais, a aplicação de uma política externa alinhada aos interesses do imperialismo e a quebra do tecido social brasileiro são as marcas de uma época triste de nossa história. Truculência no trato com os movimentos sociais foram outra marca: multiplicaram os assassinatos de líderes populares e de trabalhadores rurais sem-terra. Uma política de arrocho salarial e de terrorismo contra os trabalhadores foi implantada. A fome no Nordeste (a região mais pobre do Brasil) atingiu índices alarmantes e mais de 40 milhões de brasileiros não consumiam o número de calorias mínimas para seu autossustento. O retrocesso só não foi maior por conta da própria capacidade de resistência do povo brasileiro que reagiu prontamente contra as intenções do governo de privatizar o sistema financeiro público e a PETROBRAS.

A eleição de Lula em 2002 foi uma resposta popular a dez anos de deterioração do ambiente econômico, político e social brasileiro. Porém, é inegável que Lula representou uma “revolução democrática” sem parâmetros na história brasileira: cerca de 30 milhões de brasileiros foram retirados da linha da pobreza entre 2003 e 2010. Entre 2003 e 2010 foram gerados no Brasil 13 milhões de empregos e atualmente gozamos do menor índice de desemprego de nossa história (6%).

A retomada do crescimento e desenvolvimento econômicos no Brasil foi fruto de uma série de fatores, dentre os principais:

1) Política externa ativa, que privilegia amplas relações políticas, econômicas e comerciais com parceiros como a China, os países árabes, Índia, África e América Latina;

2) A alta dos preços de produtos primários no mercado externo puxada, principalmente, pela demanda chinesa;

3) Políticas distributivistas com grande impacto social, sendo o principal deles, o Bolsa Família, que beneficiou mais de 10 milhões de famílias;

4) Financiamentos voltados diretamente ao pequeno produtor agrícola via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF);

5) Expansão plena da rede elétrica para as regiões mais pobres do país, sintetizado no ousado plano “Luz Para Todos”;

6) Financiamento de dois milhões de unidades habitacionais no Programa “Minha Casa, Minha Vida”;

7) Retomada do papel indutor do sistema público de intermediação financeira via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal;

8) A retomada de mecanismos de planejamento econômico, sobretudo no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), com investimentos conjuntos entre Estado e iniciativa privada em infraestruturas da ordem de US$ 200 bilhões até 2015;

9) Aumento da capacidade de investimentos de grandes empresas estatais como a Petrobrás e a Eletrobrás. Somente a Petrobrás tem investimentos previstos, até 2015, da ordem de US$ 250 bilhões em novas cadeias produtivas da indústria petroquímica e naval;

10)  Política ousada de reajustes do salário mínimo com aumentos acumulados entre 2003 e 2010 de 172% (sendo que a inflação no período foi de 76,6%, ou seja, um ganho real de quase 100%);

É inegável que num ambiente de acirrada batalha política interna, o governo Lula tornou-se um marco na reversão das políticas antinacionais e antipopulares da era neoliberal. Na visão do Partido Comunista do Brasil, a “era Lula” teve de superar a grave crise econômica e social que herdou. Ele livrou o país de um projeto claramente neocolonizador (Área de Livre Comércio das Américas – ALCA) e pôs fim à tutela do FMI sobre o país. Essa tomada de posição permitiu-lhe retomar o desenvolvimento, ainda com limitações, voltado para soberania, ampliação da democracia, distribuição de renda e integração da América do Sul e da América Latina.

Mas os desafios para o progresso efetivo e a consolidação de uma nova era de desenvolvimento econômico e social são por demais grandes. A partir de 2011 o governo Dilma Roussef tem sinalizado de forma muito positiva neste momento de impasse da economia internacional, com grandes reflexos para o Brasil. As taxas de juros (ainda as maiores do mundo) estão em queda, os programas sociais estão mantidos e ampliados e uma série de medidas voltadas para a proteção de nossa indústria estão sendo implementados.

Porém, resta ainda um longo caminho para a consolidação das conquistas e aprofundamento das mudanças em nosso país. Mudanças tais com caráter nada imediato, e sim com grandes implicações de ordem estratégica.

Os comunistas e o “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”

O Brasil é um país muito complexo, complexidade esta refletida num ambiente político cada vez mais radicalizado, onde uma oposição conservadora feroz não mede esforços para conter os avanços obtidos nos últimos anos. Não temos ilusões quanto a uma derrota efetiva do neoliberalismo em nosso país. Hegemonia eleitoral não quer dizer, necessariamente, a existência de uma hegemonia na sociedade como um todo. Os desafios da continuidade do processo de desenvolvimento em nosso país são desafios políticos que demandam um grande esforço de unidade e clareza de rumos acerca de objetivos estratégicos.

Para os comunistas brasileiros é muito claro que existe a necessidade de alçar o presente processo político a um outro patamar. Este outro patamar, chamado a corrigir os impasses e as deformações estruturais de nosso país tem claro sentido de “salto civilizacional” (como os ocorridos em 1822 e 1930). Este salto civilizacional será a implementação de um “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento” e do Programa Socialista do PCdoB. Este Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento é chamado para a superação definitiva de uma imensa gama de contradições internas que vão desde o caráter ainda dependente de nossa economia, científica e tecnológica, até a existência em nosso país de graves mazelas sociais e ameaças constantes à nossa soberania. Em nossa época, a superação dessas contradições ganha a dimensão de conquista estratégica. É condição para um desenvolvimento avançado e um futuro de bem-estar social. A presente crise financeira coloca tanto o mundo quanto o Brasil numa verdadeira encruzilhada histórica.

Conforme indica a tendência histórica objetiva, a solução para o Brasil é acumular forças para a plena consecução de um “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”, o que em outras palavras significa abrir um amplo relevo que nos levará a um “caminho brasileiro para o socialismo”.

*Elias Jabbour é doutor e mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Ex-Assessor Econômico da Presidência da Câmara dos Deputados (2006-2007). Autor de livros, dentre eles, “China: Infra-Estruturas e Crescimento Econômico” (2006) e “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (2011). É membro da Comissão Auxiliar da Presidência Nacional do Partido Comunista do Brasil.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Renato Rabelo em Alagoas

O presidente nacional do PCdoB: Renato Rabelo.

 

A convite da direção estadual do PCdoB-AL o presidente nacional do Partido, Renato Rabelo, estará em Alagoas no próximo dia 19 de novembro, para falar aos alagoanos em ato que se realizará no auditório da sede da OAB, Seccional de Alagoas, no Centro de Maceió, à Praça do Montepio, às 10:00 horas da manhã.


O Partido em Alagoas se prepara para receber seu presidente nacional, e convida seus dirigentes, militantes, filiados, em especial todas as suas direções municipais no Estado, todos os pré-candidatos às próximas eleições de 2012 pelo PCdoB, amigos, apoiadores e toda a sociedade alagoana para assistir à palestra de Renato Rabelo sobre A Conjuntura Política, a Realidade Brasileira e o Projeto Político-eleitoral do PCdoB.

Na ocasião será feito o lançamento da publicação Alagoas, os grandes desafios – documentos do PCdoB-AL 2011, em que o Partido em Alagoas apresenta às correntes políticas progressistas e desenvolvimentistas do Estado, à militância do PCdoB e à sociedade alagoana as linhas iniciais para um Novo Projeto de Desenvolvimento para Alagoas.

De Maceió, Selma Villela.

Editorial Princípios: Crise capitalista volta a se agravar, mas o Brasil pode resistir e até avançar

Gente, as últimas batalhas têm consumido muito do meu tempo, e como continuo sem computador (recorrendo como agora as “lan houses da vida”) tem ficado cada vez mais difícil alimentar meu Blog. Mas como todo militante da UJS acredito que #VaidaCerto, então para compensar um pouco o tempo perdido trago nessa postagem o editorial da revista de formação teórica e política, Princípios, que sempre nos trás uma boa defesa do Brasil e do socialismo.

Logo, postarei algumas reflexões e textos próprios. O Blog seguirá firme!


Editorial da revista Princípios, edição 115, outubro-novembro 2011

Por Adalberto Monteiro

Em outubro de 2008, foi a pique o Lehman Brothers, grande banco de investimentos dos EUA. Este fato simbolizou o início da primeira fase aguda da grande crise do capitalismo que teve como estopim o estouro da bolha imobiliária estadunidense, ocorrida em 2007.

Como se sabe, houve uma onda de quebradeiras (bancos, seguradoras, grandes empresas produtivas etc.) nos EUA e na Europa, cujo auge foi 2009, quando a economia mundial teve uma queda de 2,1%. Os países da chamada periferia do capitalismo, notadamente China, Índia, Rússia, Brasil e outros, apesar de atingidos, enfrentaram com êxito os efeitos deste abalo sísmico. A causa desse terremoto, ainda em movimento, tem como elemento desencadeador, a “ditadura” do mercado, do capital especulativo, sobre as dinâmicas das economias e das finanças das nações e dos Estados.

Em 2010, houve uma tíbia recuperação da atividade econômica. Foi o bastante para os ideólogos neoliberais apregoarem que já soprava a aragem da bonança.

Mas, o relatório semestral do Fundo Monetário Internacional (FMI), de setembro último, tem um título que por si só atesta o quanto eram embuste e miragem aquelas idílicas previsões: Reduzindo o crescimento, Aumentando os riscos (o grifo é nosso). Para o FMI, em 2011, o crescimento global não passará de 4%. Os países do chamado “primeiro mundo”, as grandes potências capitalistas, irão marcar passo na estagnação. Os EUA e um coletivo nominado de economias avançadas terão um desempenho medíocre, com um crescimento raquítico de 1,5% e 1,6%, respectivamente. Já os emergentes devem crescer 6,4%, segundo ainda o FMI. A China socialista, embora haja dúvidas e especulações sobre seu fôlego, continuará, neste ano, sendo o pulmão da economia mundial, com 9,5% de PIB positivo. Para o Brasil, se estima um aumento do PIB de 3,8%, embora as previsões internas já acusem 3,5% ou até menos. Tudo somado demonstra que a crise teve uma recaída e que ela não tem data para determinar.

O neoliberalismo, apesar do fracasso, recrudesce no centro capitalista. As promessas de alguma regulamentação do mercado financeiro até aqui não passaram de palavras. Até agosto último, os tesouros e bancos centrais de todo o mundo já gastaram mais de 12,4 trilhões de dólares para socorrer bancos e outras instituições financeiras. Nestes três últimos meses do ano, a Europa deve injetar somas fabulosas para salvar bancos combalidos.

Como é da natureza do capitalismo, o ônus da crise é lançado sobre os ombros dos trabalhadores e se eleva o saque sobre os demais países. Segundo acusa a Organização Mundial do Trabalho (OIT), há 200 milhões de desempregados no conjunto das nações e, desde 2008, 20 milhões de postos de trabalho foram cortados. A penúria e o sofrimento impostos ao povo são imensuráveis.

Contra isso, em várias regiões do globo o povo se levanta. Exemplos disso são os movimentos “Ocupe Wall Street” e o dos “Indignados”. O primeiro se espalhou por muitas cidades dos Estados Unidos e, o segundo, na Europa. Embora ecléticos, as vozes se unem em gritos de protesto contra o capitalismo e as mazelas de sua crise. Já na América Latina, se mantém e até se amplia o leque de países governados por forças democráticas.

Acelera-se a decadência relativa do imperialismo estadunidense e se fortalecem outros polos de poder, com destaque para o crescente papel geopolítico da China socialista. Isso encerra riscos, ameaças, porque nenhuma potência cede sua hegemonia de forma pacífica, sobretudo, quando um dos principais trunfos que lhe resta é seu poderio bélico.

De qualquer modo, neste quadro complexo e instável, quando o conservadorismo se robustece para tentar conter o declínio da potência hegemônica, os dogmas neoliberais são uma vez mais desmoralizados e o povo se levanta em defesa dos seus direitos, aparecem neste cenário contraditório janelas de oportunidades para avanços democráticos e progressistas.

O Brasil vai atravessar um oceano tempestuoso, mas tem plenas condições para abrir uma destas “janelas”. Pode não apenas sustentar o crescimento de sua economia, mas avançar seu projeto nacional de desenvolvimento. A presidenta Dilma Rousseff demonstra determinação em defender a economia nacional e os direitos dos trabalhadores. Sua anunciada decisão de promover uma contínua redução dos juros indica um rumo certo para o país singrar as águas revoltas.

Adalberto Monteiro
Editor da Revista Princípios

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Ex-diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e ex-presidente da União da Juventude Socialista (UJS) de Alagoas. Atual militante e presidente do Comitê Municipal de Maceió do Partido Comunista do Brasil, PCdoB.
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