sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Opinião: PCdoB aberto, democrático e socialista

“O texto-zumbi, daqueles que vagam por aí desde os tempos da guerra fria e da ditadura militar, não poderia ser mais démodé; é preconceituoso, racista e homofóbico”. Assim Luiz Carlos Orro, presidente do PCdoB de Goiás, qualifica o texto escrito por Rosenwal Ferreira, publicado no jornal Diário da Manhã, de Goiânia, no dia 28 de janeiro. Ferreira, que mantém um blog no qual se intitula "100% ético", afirma em seu texto raivoso que é um "anticomunista assumido" e diz que "o PCdoB é uma sigla de aluguel" e Marx foi um "preguiçoso crônico que deixou um legado de bobagens profundas".
O Vermelho reproduz a seguir a íntegra do artigo de Luiz Carlos Orro em resposta às ofensas proferidas por Rosewal Ferreira.

Na semana passada o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o ideal do socialismo foram vítimas de despropositados ataques em artigo folclórico de um personagem da extrema-direita, um jornalista que se apresenta também com o pomposo título de empresário. O texto-zumbi, daqueles que vagam por aí desde os tempos da guerra fria e da ditadura militar, não poderia ser mais démodé; é preconceituoso, racista e homofóbico. Traz anacrônica linguagem, mais apropriada para relatórios da CIA, DOPS e DOI-CODI's (os violentos braços da repressão do regime militar dos anos 60 e 70, onde agentes do Estado torturaram milhares e mataram centenas de lutadores pela democracia).

As ofensas foram ao meu partido, ao ideal do socialismo e a todos os que lutaram contra o arbítrio. Quanto a mim, estou na luta há mais de trinta anos, de nada me arrependo. Entrei para o PCdoB em fins dos anos 70, sofri quatro prisões na época da ditadura (a primeira aos 15 anos de idade), fui espancado, torturado, enquadrado na abjeta Lei de Segurança Nacional, submetido a inquérito na Polícia Federal, tempos em que eu usava o codinome ''gaúcho''. Participei da reconstrução do movimento estudantil, fui eleito vice-presidente da UNE em 1980, atuei na campanha Diretas Já. Após 21 de exceção, quem venceu foi a democracia, em 1985.

Os que ousaram enfrentar o regime de força e que sofreram perseguições foram anistiados, e ainda hoje o movimento democrático exige o julgamento e a punição dos agentes públicos que praticaram, nos porões do regime de arbítrio e nas matas do Araguaia, crimes de tortura, assassinatos seletivos – extermínio político e ideológico -, ocultação e destruição de cadáveres, documentos e outras provas das atrocidades cometidas; enfim, crimes contra a humanidade, crimes imprescritíveis. De tudo o que fiz orgulho-me e na atualidade a luta dos comunistas continua em aliança com outros partidos, ao lado de lideranças do quilate do Presidente Lula e do Prefeito Iris Rezende, ambos também perseguidos nos anos de chumbo. Nossa bela Goiânia melhora a cada dia e vejo com otimismo os avanços econômicos e sociais que o nosso Brasil experimenta, conquistas das quais participam com orgulho os comunistas, através de alianças públicas e legítimas.

O Partido Comunista do Brasil foi fundado em 1922, em 25 de março próximo completará 87 anos. É o mais antigo partido do País e foi também o mais perseguido. Por dezenas de vezes as classes dominantes anunciaram o fim do Partido Comunista, seja pela polícia do conservador Artur Bernardes, nos anos 20, pela repressão do Estado Novo, de meados dos anos 30 a 1945; ou nos tempos da sanha cassadora do Marechal Dutra no pós-45, quando os 15 deputados federais e o senador Luís Carlos Prestes, eleitos pelo Partido Comunista do Brasil, tiveram seus mandatos anulados.

Mesmo tendo vivido a maior parte de sua existência como partido ilegal, sendo obrigado a funcionar clandestinamente, a corrente comunista sempre teve influência na vida política do Brasil. Em 1962, essa corrente cindiu-se, após o advento do Partido Comunista Brasileiro, que manteve a sigla PCB, e a consequente reorganização do Partido Comunista do Brasil, que adotou a sigla PCdoB. Já nos anos 90, o PC Brasileiro transformou-se novamente, dessa vez em PPS, que agora anda alinhado ao PSDB e DEM, a nova direita brasileira que faz oposição ao governo federal. Já o PCdoB, marcha firme em outra direção, apoia e participa do governo federal, pois avalia que o campo liderado por Lula tem um projeto político que beneficia os trabalhadores e o povo pobre, que reforça as bases da Nação, evidenciado na defesa da soberania, no crescimento econômico do país, na distribuição de renda, na afirmação democrática e integração soberana do continente sul-americano.

Nas eleições de 2008, o PCdoB obteve expressivas vitórias. Elegeu Edvaldo Nogueira para prefeito em Aracaju e manteve, para um terceiro mandato, a prefeitura de Olinda (PE), com Renildo Calheiros. Conquistou 41 prefeituras e totalizou um 1,767 milhão de votos na eleição majoritária. Na proporcional, o PCdoB obteve resultados ainda maiores: 2, 174 milhões, elegendo 604 vereadores, 21 deles em 16 capitais. Além de seus resultados próprios, o PCdoB apoiou coligações vitoriosas em 926 cidades, significando espaços de atuação importantes para a acumulação de forças e a ampliação da atuação partidária.

Em Goiás, os candidatos do PCdoB conquistaram mais de 34 mil votos, oito vereadores foram eleitos e os comunistas estão participando de cerca de vinte administrações de prefeitos coligados. Em especial, a eleição do vereador Fábio Tokarski em Goiânia, com 6.705 votos, muito contribui para reposicionar a legenda comunista em Goiás. O PCdoB abriu, com esses resultados, um novo caminho na disputa política. Até 2010 passaremos dos atuais 6 mil para 10 mil filiados goianos.

O que vem por aí é um PCdoB amplo, aberto à filiação de milhares de militantes e líderes políticos e de movimentos sociais. Nas próximas eleições, o PCdoB concorrerá com chapa própria de deputados estaduais, serão 50 candidatos. Os comunistas goianos pretendem também eleger um deputado federal, integrando-se ao esforço partidário nacional para dobrar a atual bancada de treze deputados federais.
Com eleição ou sem eleição, o Partido Comunista está sempre em movimento, funciona como bica d’ água, de dia e de noite, faça chuva ou faça sol. Onde haja injustiça, sempre se encontrará um comunista em luta pelos direitos do povo. Seus militantes atuam no movimento sindical e ajudam a ampliar a estruturação da recém-criada Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), defendendo os direitos dos assalariados urbanos e rurais. A presença comunista também tem força no movimento estudantil, comunitário, de defesa de negros, mulheres e jovens.

Na atualidade, o PCdoB se esforça para desenvolver e aperfeiçoar o marxismo, publica a revista Princípios ininterruptamente desde 1981, interage com expressivas parcelas da intelectualidade e comunidade acadêmica.Tudo isso faz parte da nossa luta por democracia econômica e social, pois só a democracia política não basta para resolver as agruras que o nosso povo ainda enfrenta. Defendemos o socialismo enquanto sistema mais avançado, nos aspectos social, político e econômico. E um socialismo democrático, com as características próprias da cultura e da gente brasileiras.

Essa é a cara do Partido Comunista do Brasil, que sempre esteve na luta e não tem do que se envergonhar.

Por Luiz Carlos Orro, presidente estadual e membro do Comitê Central do PCdoB, Secretário de Esporte e Lazer de Goiânia e membro da diretoria da Associação de Anistiados pela Cidadania e Direitos Humanos de Goiás.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Marx, Engels e o Partido Comunista - 2° parte

A Liga Comunista

A Liga Comunista foi uma continuação da Liga dos Justos. Esta última foi criada em 1836, formada por artesões alemães emigrados. O centro político da organização residia em Paris, mas foram criadas seções secretas na Alemanha. Depois de participar de uma revolta blanquista (1839), uma parte dos seus dirigentes foi aprisionada e outra teve que fugir para Londres, onde havia mais liberdade política.

Engels foi o primeiro a entrar em contato com os membros Liga dos Justos, entre 1842 e 1844, quando da sua estada na Inglaterra. Ele ficou bastante impressionado e afirmou que tinha sido os primeiros proletários revolucionários que havia conhecido. Mesmo assim, ele não se convenceu em aderir, pois suas concepções eram bastante diferentes naquele momento. A Liga ainda compartilhava algumas idéias utópicas sobre o socialismo.

No final de 1846, a direção da Liga propôs a convocação de um congresso de todas suas seções. Os principais objetivos eram a elaboração de um novo programa socialista e dos estatutos, mais adequados às suas recentes experiências. As posições teóricas e políticas de Marx e Engels haviam chamado a sua atenção. Por isso, eles foram convocados para ajudar nesse processo de reorganização.

Então, no dia 2 de junho de 1847, teve início aquele que foi o último congresso da Liga dos Justos e o primeiro da Liga dos Comunistas. Uma “carta circular” justificou a alteração do nome: "Nós nos distinguimos não por propugnar a justiça em geral (...) mas sim por repudiar o regime social existente e a propriedade privada, propugnamos a comunidade de bens, somos comunistas". A divisa também foi alterada para se adequar aos novos princípios adotados. Em lugar de "Todos os homens são irmãos" lia-se agora "Proletários de todos os países uni-vos!".

O segundo congresso da Liga iniciou-se em 29 de novembro. Marx foi eleito delegado pela região de Bruxelas e Engels pela de Paris. Foi a assembléia mais representativa do movimento operário internacional até aquele momento. Estavam presentes representantes da Alemanha, França, Inglaterra, Suíça e Bélgica. O primeiro parágrafo dos novos estatutos dizia: “O objetivo da Liga é o derrubamento da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa que repousa sobre oposições de classes e a fundação de uma sociedade sem classes e sem propriedade privada”. Este era um divisor de águas em relação a todas as organizações pequeno-burguesas reformistas ou revolucionárias.

Neste conclave, Marx recebeu o encargo de elaborar o programa definitivo da organização. Ele se chamaria “Manifesto do Partido Comunista” e viria ao público em janeiro de 1848, poucos dias antes de eclosão da revolução na França que derrubou o rei Louis Felipe. Em seguida iniciou-se uma onda revolucionária que se espalhou por toda a Europa e ficou conhecida como Primavera dos Povos.

Na segunda parte do Manifesto do Partido Comunista intitulada "Proletários e Comunistas", Marx e Engels procuraram expor a dialética que envolvia a complexa relação entre o partido e a classe. Nela afirmavam: “Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses que o separem do proletário em geral (...) Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos: 1º Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independentemente da nacionalidade; 2º Nas diferentes fases por que passa a luta entre os proletários e burgueses, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto”.

Praticamente, continuam “eles, os comunistas constituem a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país, a fraca que impulsiona as demais; teoricamente tem sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições da marcha e dos fins gerais do movimento proletário”.

Neste trecho, Marx e Engels definem claramente o papel de vanguarda do Partido Comunista. Portanto, essa tese não foi uma invenção de Lênin ou dos bolcheviques russos. Segundo os dois revolucionários alemães, o Partido Comunista faz parte da classe – é um partido do proletariado -, mas, ao mesmo tempo, não se confunde integralmente com ela, pois representa sua vanguarda organizada.

Os autores do “Manifesto” buscaram, além da elaboração de uma concepção de Partido e de uma estratégica revolucionária, refletir sobre as formas de organização que este partido proletário (de vanguarda) deveria ter. Ou seja, eles buscaram, também, nos legar elementos para a construção de uma teoria da organização política proletária.

As mudanças estatutárias eram essenciais na transformação da Liga de uma seita conspirativa (blanquista) para uma verdadeira organização política revolucionária e operária com influência de massas. Para isso foram retiradas dos estatutos todas as excrescências comuns às sociedades secretas da época, como os rituais místicos de ingresso, juramentos, concentração excessiva de poderes nos líderes. O congresso anual, composto de delegados eleitos democraticamente nas comunidades e regiões, se transformou no órgão máximo da organização. As direções centrais passaram a ser eleitas nesses congressos e seus membros poderiam ser destituídos a qualquer momento pela vontade de sua comunidade. Os órgãos inferiores deveriam se subordinar aos órgãos superiores.

A Liga dos Comunistas era uma organização bastante democrática e, ao mesmo tempo, centralizada. Em muitos países ela era clandestina. Para despistar a polícia e poderem se ligar às massas, seus membros criaram associações culturais operárias legais onde puderam atuar mais abertamente. Marx e Engels abominavam a idéia de que a Liga se transformasse numa seita, isolada dos trabalhadores e da grande política.

Muito dos princípios norteadores da nova organização permaneceriam na tradição do movimento socialista: o partido do proletariado, de vanguarda, internacionalista e voltado para ruptura revolucionária com o capitalismo. Poderíamos dizer, também, que ficou a idéia de um partido democrático e centralizado.

As derrotas das revoluções populares de 1848, resultados das vacilações burguesa e pequeno-burguesa, levaram Marx e Engels a pleitear com mais força a necessidade de constituição de partidos operários realmente independentes. Na “Mensagem do Comitê Central da Liga dos Comunistas” (1850), escreveram: “A fim de estar em condições de opor-se energicamente aos democratas pequeno-burgueses, é preciso, sobretudo, que os operários estejam organizados de modo independente e centralizados através de seus clubes (...) e na primeira oportunidade, o Comitê Central (da Liga) se transferirá para a Alemanha, convocará imediatamente um Congresso, perante o qual proporá as medidas necessárias para a centralização dos clubes sob a direção de um organismo estabelecido no centro principal do movimento”.

Continuaram eles: “Ao lado dos candidatos burgueses democráticos que figurem em toda parte candidatos operários, escolhidos na medida do possível dentre os membros da Liga, e que para o seu triunfo se ponham em jogo todos os meios disponíveis. Mesmo que não exista esperança alguma de vitória, os operários devem apresentar candidatos próprios para conservar independência, fazer uma avaliação de força e demonstrar abertamente a todo mundo sua posição revolucionária e os pontos de vista do partido”.
A Liga dos Comunistas foi duramente perseguida. Contra ela, instaurou-se o processo de Colônia na Alemanha, nos quais vários dirigentes foram condenados a longos anos de prisão. Assim, não havia mais condições de mantê-la funcionando e, em 1852, foi dissolvida. Marx afirmou: “a Liga dissolveu-se, por minha iniciativa, declarando que a sua continuação (...) já não corresponde à situação vigente.”

A Associação Internacional dos Trabalhadores

Após a crise e fechamento da Liga dos Comunistas, houve um momentâneo desânimo de Marx e Engels em relação às possibilidades da constituição de um Partido Comunista. Foram desse curto período as frases mais desconcertantes expressas em cartas por esses dois personagens. Marx, por exemplo, escreveu ao poeta Freiligrath: “nunca voltarei a pertencer a nenhuma sociedade, secreta ou pública”. Mas, logo sentiriam a necessidade de “recrutar nosso partido”. A Liga dos Comunistas, para eles, havia sido apenas “um episódio na história do Partido, que em toda parte cresce espontaneamente do solo da sociedade moderna”.

No final da década de 1850, o movimento operário da Europa e dos Estados Unidos começou a recobrar fôlego. Organizaram-se novos sindicatos e realizaram-se grandes greves por aumento de salários, redução de jornada e por direitos sociais. A própria composição da classe operária começou a se modificar: aumentou o número dos operários empregados na grande indústria.

Fruto desse processo, em 28 de setembro de 1864, formou-se a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). Escreveu Johnstone: “A formação da 1ª Internacional em 1864 deu a Marx (e mais tarde Engels) a oportunidade de romper com seu relativo isolamento e integrar-se ao movimento operário da Europa Ocidental, que então renascia numa escala muito mais ampla que seu predecessor continental da década de 1840.”

Como ocorreu em 1847, Marx e Engels foram chamados para ajudar na elaboração do programa e dos estatutos da nova organização operária. A tarefa seria muito mais difícil, pois desta Internacional participavam os trade-unionistas britânicos, os proudhonianos franceses, os lassalianos alemães, os bakuninistas (anarquistas) e outras correntes não-marxistas. Nela ainda podiam se filiar sindicatos, cooperativas de consumo e produção, associações políticas (secretas ou públicas) e personalidades avulsas. Portanto, ao contrário da Liga dos Comunistas, seria difícil pensá-la como um partido unificado política e ideologicamente.

Marx elaborou os documentos fundacionais, como o “preâmbulo aos estatutos” e a “Mensagem Inaugural”. Ele teve que ter grande habilidade para contentar todas as correntes participantes, sem cair no ecletismo ou retroceder significativamente sobre o terreno teórico já conquistado com o Manifesto Comunista de 1848. Neles estava presente a idéia chave: “conquistar o poder político tornou-se o grande dever das classes operárias”. No preâmbulo estampava a frase “A emancipação da classe operária tem que ser conquistada pela própria classe operária”.

Os estatutos, seguindo o modelo da Liga, previam congressos anuais como instâncias máximas que deveriam eleger um Conselho Central. Criou-se também um pequeno órgão executivo chamado Comitê Dirigente, com cerca de 10 pessoas. Marx mesmo impossibilitado de estar no Congresso, foi indicado para este comitê por ser secretário da sessão alemã. Como afirmou Lênin, a partir de então ele seria a alma da Internacional. Muitas das reuniões da direção central eram realizadas em sua casa. A história da Liga e da I Internacional comprova quão falsa são as teses que afirmam que Marx jamais se envolveu em trabalhos de direção concreta de uma organização partidária.

Na Conferência de Londres (1865) Marx e Engels derrotaram os proudhonianos franceses que queriam acabar com o princípio da representação, defendendo que todos os operários presentes aos congressos deveriam votar e que a Internacional não tratasse da luta de libertação travada pelos poloneses por ser um assunto estritamente político que nada tinha a ver com um congresso estritamente operário. Para contribuir com o debate, Engels escreveu uma série de artigos intitulados “O que tem a classe operária a ver com a Polônia?”. O internacionalismo proletário seria um princípio irrevogável para os comunistas.

Mas a grande batalha de Marx e Engels dentro da Internacional ainda estaria por vir. Em 1868 o anarquista russo Bakunin fundou a Aliança Internacional da Democracia Socialista e solicitou o seu ingresso na AIT. Marx e Engels propuseram que a direção não aceitasse tal proposta por tratar-se de outra organização internacional e com outros princípios políticos e organizativos. Bakunin manobrou, dissolveu formalmente a Aliança e solicitou que as organizações regionais se filiassem à AIT. Na prática, a Aliança bakuninista passou a funcionar clandestinamente dentro da Internacional comprometendo sua unidade.

Sentindo-se mais a vontade e ganhando a confiança da maioria dos membros da AIT, Marx e Engels deram novos passos à frente quer quanto ao programa quer quanto à organização. Na Conferência de Londres (1871) aprovaram uma resolução “sobre a atividade política da classe operária” na qual se afirmava: “contra o poder coletivo das classes proprietárias, o proletariado só pode atuar como classe constituindo-se em partido político distinto, oposto a todos os antigos partidos formados pelas classes proprietárias” e que “esta aglutinação do proletariado em partido político é indispensável para assegurar o triunfo da revolução social e de seu objetivo supremo: a abolição das classes”. Engels, resumindo a resolução, escreveu: “ela meramente demanda a formação, em todos os países, um partido independente da classe operária, oposto a todos os partidos da classe média”.

As organizações regionais sob direção dos anarquistas se recusaram a aceitar as decisões de uma conferência. Em 1872, o Conselho Geral denunciou as manobras anarquistas contra a Internacional. Marx, Engels e Lafarge escreveram o folheto “As pretensas divergências na Internacional” e se prepararam para o combate que se daria no congresso que se aproximava. Pela primeira vez os dois amigos participariam juntos de um evento como esse. Marx escreveria, “neste congresso tratar-se-á da vida ou da morte da Internacional”.

Este seria o encontro internacional mais representativo do movimento operário socialista até então. Ali estavam presentes setenta e cinco delegados, representando quinze países. Em Haya, como esperado, os anarquistas pediram a dissolução do Conselho Geral e de toda autoridade no interior da AIT. Mas, o congresso ratificou todas as decisões de Londres. A resolução final destacou: “A constituição da classe operária em partido político é indispensável para assegurar o trunfo da revolução social e do seu fim supremo: a abolição das classes (...) A conquista do poder político torna-se o grande dever do proletariado”. Diante dos sucessivos atos divisionistas promovidos pelos anarquistas, fartamente documentados, decidiu-se pela expulsão de Bakunin e seus camaradas.

O massacre da heróica experiência da Comuna de Paris (1871) representou um duro golpe contra a Associação Internacional dos Trabalhadores, apesar dela ter tido um papel relativamente pequeno na sua eclosão e direção. Como ocorreu após as derrotas das revoluções de 1848, o mundo entrou numa fase de avanço das correntes reacionárias.

Visando proteger a Internacional da contra-revolução e das influências blanquistas (e anarquistas) que cresciam, Marx e Engels propuseram a sua transferência para Nova Iorque. Alguns anos depois, em 1876, a Conferência de Filadélfia decidiu pela sua dissolução. A situação era desfavorável à existência de uma organização socialista internacional daquele tipo.

Em setembro de 1873, Marx havia escrito: “Segundo minha visão das condições européias, é inteiramente útil fazer agora passar a organização formal da Internacional para um segundo plano”. Dois anos depois repetiria a mesma idéia: “A atividade internacional da classe operária não depende de maneira alguma da existência da Associação Internacional dos Trabalhadores. Esta foi apenas a primeira tentativa de criar um órgão central para aquela atividade; uma tentativa que, pelo impulso que deu, teve conseqüências duradouras, mas que, na sua primeira forma histórica, não era prolongável mais tempo após a queda da Comuna de Paris”.

Marx e Engels chegaram à conclusão de que a existência da Internacional poderia se constituir num obstáculo à formação de poderosos partidos operários nos marcos dos principais países capitalistas. Isso contradiz uma tese muito difundida que afirma ser a Internacional uma forma de organização necessária em toda e qualquer conjuntura, sendo quase uma questão de princípio para os comunistas. Isso não é verdadeiro.
Em algumas fases do movimento comunista, de instrumento impulsionador da luta e da organização proletária ela se transformou num entrave. O que é um princípio irremovível para os marxistas revolucionários é o internacionalismo proletário e não as internacionais.

Nota:
Esta é a segunda parte do texto “Marx, Engels e o Partido Proletário”, que serviu de subsídio para elaboração do roteiro das aulas sobre as internacionais e o partido comunista, ministradas no Encontro Nacional da Escola do PCdoB em janeiro de 2009. O artigo-ensaio foi dividido em três partes.

*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp

Darwin também era barbudo


por Luciano Rezende*


“Nada na biologia tem sentido se não for à luz da evolução”. Theodosios Dobzhansky.
“Seu nome atravessará os séculos, bem como sua obra!” Friedrich Engels.
O mundo se curva ao gênio de Charles Darwin pela passagem dos duzentos anos de seu nascimento e pelo sesquicentenário de sua obra mais importante, “A origem das espécies”. Um gigante do pensamento, que assim como seu contemporâneo Karl Marx, revolucionou a ciência.


A propósito, por ocasião do funeral de Marx, ocorrido em 18 de março de 1883, seu amigo e companheiro de labor científico, Friedrich Engels, disse que o marxismo havia revelado a lei do desenvolvimento da história humana assim como Darwin tinha exposto ao mundo a lei do desenvolvimento dos organismos naturais. Não por acaso Marx e Darwin tenham trocado várias correspondências, inclusive disponibilizadas via internet pela Universidade de Cambridge (vale conferir). Igualmente, poucos foram tão caluniados como esses dois subversivos, que até hoje despertam a mais odiosa oposição por parte das classes dominantes.

Mesmo a insuspeita revista Veja, destacada sucursal brasileira do reacionarismo mundial, em sua última edição, estranha o fato de que até em um país como os Estados Unidos, onde se dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e se registram mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados, consiga assombrar seu povo ao ponto de fazer com que somente um em cada dois estadunidenses acredite que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. Nesse mesmo país, baluarte dos ideais capitalistas, um grupo de religiosos chegou a investir milhões de dólares para reproduzir o ambiente do gênesis bíblico em uma exposição na qual dinossauros convivem em perfeita harmonia com Adão e Eva no Jardim do Éden. É a campanha obscurantista (e macartista) que dia e noite tenta refutar teorias avançadas e libertárias. Um celofone ideológico que empacota e vende valores individualistas, avalizando a idéia da concorrência selvagem como motor da história, ao mesmo tempo em que difunde o “design inteligente” como teoria científica.

Tudo isso faz lembrar J. B. S Haldane que pontuou magistralmente no prefácio do livro “A Dialética da Natureza”, de Engels, que “Darwin não teve a menor idéia da amarga sátira que escrevia sobre os homens (e especialmente sobre seus compatriotas), quando afirmou que a livre competição, a luta pela existência, que os economistas celebram como sendo a maior conquista histórica do homem, constitui exatamente o estado natural do reino animal”. Ou seja, o que os porta-vozes do neoliberalismo continuam defendendo em nosso tempo, nada mais é que a desumanização da nossa espécie e o rebaixamento do homem ao mesmo nível de seus pares do mundo animal selvagem. Um tipo de darwinismo social, prostituído do original, deturpado da obra de quase um século e meio, que vem a calhar na tentativa de justificar e abonar toda a sorte de opressão capitalista. Nesse contexto, cabe a pergunta: quem na verdade são os dinossauros ou quem são aqueles que defendem idéias jurássicas?

O próprio Haldane nos responde parcialmente lembrando que “somente uma organização consciente da produção social, de acordo com a qual se produza e se distribua obedecendo a um plano, pode elevar os homens, também sob o ponto de vista social, sobre o resto do mundo animal, assim como a produção, em termos gerais, conseguiu realizá-lo para o homem considerado como espécie. A partir daí, iniciar-se-á uma nova época histórica, em que os homens como tais, (e com eles, todos os ramos de suas atividades, especialmente as ciências naturais) darão à sociedade um impulso que deixará na sombra tudo quanto foi realizado até agora”.

As semelhanças entre esses dois revolucionários não param por aí. Há muitas implicações filosóficas e culturais oriundas da obra de Darwin, que assim como Marx, contribuíram na desmistificação do criacionismo religioso. Marx provou que o correspondente estágio econômico de um povo ou de uma época constitui o fundamento a partir do qual as noções religiosas se desenvolvem, e não o contrário. Darwin, que na juventude simpatizava com as idéias criacionistas do reverendo Willian Paley (autor da obra “Teologia Natural” de 1802), ainda trabalhou durante 20 anos após a viagem de cinco anos que fez em volta ao mundo no navio “HMS Beagle”, desvencilhando-se de seus dogmas, para chegar à tese da seleção natural. Hoje, até o Vaticano, embora ainda não tenha pedido desculpas a Darwin, se viu obrigado a aceitar a teoria da evolução para tentar adaptá-la às suas crenças bíblicas.

Mas toda grande descoberta é assim. Demora a ser aceita. Ainda chegará o tempo em que será proibida a imposição do criacionismo no currículo de ciências nas escolas assim como escravizar aqueles que não detêm meios de produção.

Em relação a esse tema da escravidão, Darwin e Marx também mantinham suas similitudes de pensamento. Recentemente foi lançado o livro – “Darwin’s Sacred Cause” (A Causa Sagrada de Darwin), que sustenta que o ódio à escravidão ajudou a mover as teses de Darwin, refutando o preconceito de classe que diferenciava brancos e negros como sendo de espécies diferentes.

Com os dois, a ciência e o método científico sempre foram colocados em primeiro plano, derrubando dogmas e crenças que até hoje se fazem valer, mesmo na academia, para justificar os privilégios de uma classe sobre outra.

São muitas as coincidências dessa dupla revolucionária. Recentemente houve uma exposição da barba de Charles Darwin no Museu de História Natural de Londres, o que estimulou o jornal britânico “The Times” a realizar uma pesquisa sobre a barba mais famosa da história. O vencedor foi... Karl Marx.

Com uma elite como a nossa, que ousa mesmo a se referir raivosamente ao nosso presidente (que goza de 84% de popularidade) como “sapo barbudo”, resta-nos lamentar por todas essas espécies imberbes de espírito (que em breve estarão extintas) e avisá-los de que podem colocar as barbas de molho, pois a evolução é inexorável também aos modos de produção, principalmente se este se encontra em “homozigose”.

Nota
Artigo originalmente publicado no Jornal da Ciência da SBPC.


*Luciano Rezende, Engenheiro Agrônomo, mestre em Entomologia e doutorando em Genética. Da Direção Nacional da UJS.

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Ex-diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e ex-presidente da União da Juventude Socialista (UJS) de Alagoas. Atual militante e presidente do Comitê Municipal de Maceió do Partido Comunista do Brasil, PCdoB.
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