quarta-feira, 9 de março de 2011

A intervenção imperialista na Líbia é inaceitável


A crise na Líbia entrou há vários dias numa fase em que já não se pode designá-la como tal, nem mesmo como uma crise do Norte da África. Ganhou o status de grave problema internacional. Rufam os tambores de guerra e os imperialistas já não escondem que são frenéticos os preparativos para cometer mais uma agressão a um país soberano.

Por José Reinaldo Carvalho*

Com o passar dos dias, algumas mentiras vieram à tona. O que se tentou apresentar como “revolução” – a partir de uma legítima manifestação popular por democracia e direitos sociais reprimida pelo governo líbio, em mais uma de muitas atitudes condenáveis do regime de Kadafi – afigurou-se de fato como uma contrarrevolução.

Num curto lapso de tempo, as manifestações pacíficas deram lugar a enfrentamentos armados entre forças leais a Kadafi e uma assim chamada oposição, mescla de grupelhos arrivistas, monarquistas e facções dissidentes do regime, com o aval das potências imperialistas – EUA e União Europeia - e o histérico apoio propagandístico da mídia.

No Brasil, os principais jornais impressos e os noticiários de televisão fazem apelos constantes à “rebelião”, “insurreição” e, com a ajuda de uns poucos trotsquistas, até à “revolução”.

São espécies de edições pioradas de Catão, aquele político e militar que, a cada sessão do Senado Romano, pronunciava a frase que ficou célebre como a “Delenda Cartago”: “Cartago tem que ser destruída”, bordão surrado do império, para liquidar o povo cartaginês, que habitava o território onde se situa a atual Tunísia, povo que teimava em ser independente e foi o solo onde nasceu um dos maiores gênios militares da Antiguidade, Aníbal, cujas tropas infernizaram as legiões romanas. Agora a “delenda” diz: “A Líbia tem que ser destruída”.

Tem sido assim a saga dos imperialistas no mundo contemporâneo – enfrentar uma, duas ou mais “Cartagos” por década, o que faz através de sanções, golpes, bloqueios e ataques brutais, com milhões de mortos. No início dos anos 1990, sob Bush , pai, era o Iraque o principal alvo do império. O “democrata” Clinton deu prosseguimento à campanha para estrangular o regime de Saddam Hussein, o que se consumou em 2003 com a segunda guerra do Iraque, sob o comando de George W. Bush.

As táticas políticas e militares não se diferenciavam das que propõem agora: sanções na ONU, embargos de diversos tipos, exclusão aérea. Os pretextos eram os mesmos: deter a crise humanitária, fazer respeitar os direitos humanos, punir um ditador sanguinário. Os meios, os de sempre: propaganda maciça através dos veículos de comunicação, uníssonos quando se trata de demonizar um adversário do império ou alguém descartável, tergiversar, mentir. A desfaçatez é tamanha que o fazem encobrindo ou perdoando os crimes do império.

Depois tivemos a Iugoslávia, país dilacerado por guerras fratricidas entre as nações que a compunham, incitadas de fora, e finalmente golpeado no coração, quando o imperialismo norte-americano e a União Europeia fizeram a razia dos bombardeios sobre Belgrado em 1999.

A primeira década do novo século conheceu uma “Cartago” bem mais próxima de nós: a Venezuela de Hugo Chávez, tantas vezes no alvo de intentonas golpistas, ameaças de invasão e armadilhas visando ao magnicídio. Já conhecemos esse roteiro macabro. Saddam e Milosevic, como se sabe, foram assassinados.

Este ano assinala a passagem do cinquentenário da tentativa mais séria do imperialismo norte-americano, mancomunado com a contrarrevolução interna, de atacar seu mais incômodo alvo, a Revolução Cubana, a poucas milhas de sua fronteira. Nestas cinco décadas, sucessivos presidentes dos EUA tiveram a ilusão, seguida de decepção, de invadir a ilha e matar seu principal líder, Fidel Castro.

Voltando aos acontecimentos no norte da África, a situação se tornou mais complexa nos últimos dias porque, diferentemente do momento em que a crise se iniciou, quando se anunciava a queda iminente de Kadafi, o fato é que este se encontra em plena ofensiva contra os rebeldes e, se não retomou plenamente o controle da situação, já deu sobejas demonstrações de que não cairá tão facilmente, a não ser com a intervenção estrangeira armada, bombardeios maciços e ocupação territorial.

Conclusão óbvia dos imperialistas: invadir a Líbia. A complicação é que os Estados Unidos não podem fazer isso sozinhos. Precisam desesperadamente do aval e da participação direta da “comunidade internacional”. Os entendimentos estão a pleno vapor. A Otan, de prontidão. Falta o aval da ONU para dar ares de ação “multilateral”.

Atenção. Em muitas chancelarias elaboram-se argumentos “técnicos” para a eventualidade da intervenção estrangeira: “se a ONU autorizar apoiamos a intervenção", dizem essas chancelarias. Não será uma operação fácil para a diplomacia norte-americana, conduzida pela Sra. Clinton, que nada fica a dever em truculência à sua antecessora, obter a unanimidade no Conselho de Segurança. Mas, como há precedentes (primeira guerra do Iraque), é preciso estar em guarda. Em 1999, na Iugoslávia, a ONU não foi acionada, mas como os bombardeios foram executados pela Otan, o imperialismo estadunidense e seus aliados euro-atlânticos exibiram seus crimes de lesa-humanidade como ação coletiva. A secretária de Estado norte-americana da época alcunhou sua política externa como “multilateralismo assertivo”.

Porém, resoluções baseadas em pressões, chantagens, negociações secretas entre interesses escusos, nunca serão a expressão legítima de uma ordem pluripolar praticando o multilateralismo, mas o resultado da instrumentalização dos organismos internacionais. Não pode haver ordem multipolar sem o decidido combate ao imperialismo.

Sejam quais forem os argumentos e a cobertura jurídica e diplomática, a intervenção imperialista na Líbia é inaceitável.

*Secretário Nacional de Comunicação do PCdoB e editor do Vermelho

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Ex-diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e ex-presidente da União da Juventude Socialista (UJS) de Alagoas. Atual militante e presidente do Comitê Municipal de Maceió do Partido Comunista do Brasil, PCdoB.

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