quarta-feira, 9 de março de 2011

Os socialistas e a emancipação da mulher


O dia Internacional da Mulher passou e infelizmente não postei nada aqui no meu blog sobre essa importante data. Mas para compensar reproduzo aqui este brilhante artigo do historiador Augusto Buonicore:
 
Ao contrário dos liberais-burgueses, os principais socialistas utópicos foram bastante sensíveis ao problema da emancipação das mulheres. Saint-Simon (1760-1825), na sua Exposição da Doutrina, escreveu: “Nós teremos que mostrar como a mulher, primeiro escrava, ou pelo menos em uma condição que se avizinha da servidão, se associa ao homem e adquire cada dia maior influência na ordem social e como as causas que determinam até aqui sua subalternidade estão se enfraquecendo sucessivamente, devendo enfim desaparecer e levar com elas esta dominação, esta tutela, esta eterna minoridade que ainda se impõem às mulheres e que seriam incompatíveis com o estado social do futuro que prevemos”.

Mas, sem dúvida, foi Fourier (1772-1837) que levou mais longe as formulações feministas. Entre outras coisas, argumentou que a “mudança de uma época histórica sempre se deixa determinar em função do progresso das mulheres em relação à liberdade, porque é aqui, na relação da mulher com o homem (...) que aparece de maneira mais evidente a vitória da natureza humana sobre a brutalidade. O grau de emancipação da mulher é a medida natural do grau de emancipação geral”. E, continuou, “ninguém fica mais profundamente punido do que o homem quando a mulher é mantida na escravidão”.

Infelizmente nem todos os socialistas foram favoráveis a conceder direitos políticos e sociais às mulheres. Dentro da esquerda talvez tenha sido Proudhon (1809-1865), o pai do anarquismo, aquele que mais se colocou contra as reivindicações femininas. Para ele a mulher era, sob todos os aspectos, inferior ao homem. Inclusive tentou expressar essa inferioridade em porcentagens pseudo-científicas. Pelos seus cálculos a mulher possuía apenas 8/27 da capacidade masculina.

Segundo Evelyne Sullerot, Proudhon chegou ao absurdo de “pregar uma seleção genética que permitisse eliminar as esposas más e formar uma raça de boas esposas disciplinadas, como se formava uma raça de boas vacas leiteiras. Aspirava a uma legislação que desse ao marido o direito de vida e de morte sobre sua mulher”. As idéias preconceituosas de Proudhon fariam carreira no movimento operário europeu.

Flora Tristan: feminismo e luta operária

Flora Tristan (1803-1844) foi uma das primeiras a compreender a íntima relação existente entre a emancipação dos trabalhadores e a emancipação das mulheres. Ela pode ser considerada uma socialista da fase de transição entre o utopismo e o marxismo. Ao contrário dos utópicos e antecipando-se à Marx e Engels, Flora via no proletariado o agente principal das transformações sociais e por isso mesmo gastou boa parte de sua vida tentando organizá-lo. Nisso residia sua originalidade.

Ela viajou para Inglaterra várias vezes e, em 1840, publicou “Um passeio por Londres”, onde descreveu a situação dos trabalhadores pobres e defendeu as prostitutas, o divórcio e direitos iguais para homens e mulheres. Em 1843 Flora publicou a obra "União Operária", defendendo a formação de uma poderosa organização de trabalhadores, que congregasse indistintamente, homens e mulheres, como instrumento de luta por melhores condições de vida e de transformação revolucionária da sociedade capitalista. Entre suas bandeiras estava o direito pleno à educação, direito de escolha do marido, direito ao divórcio, igualdade das mães solteiras e filhos ilegítimos diante das leis.

Na sua obra ela afirmou: “Mesmo o homem mais oprimido pode oprimir outro ser, que é sua própria mulher. A mulher é a proletária do homem”. Por isso conclamou: “Trabalhadores, em 1791 vossos pais proclamaram a imortal declaração dos Direitos do Homem, e graças aquela solene declaração sois homens livres e iguais perante a lei (...) O que toca a vocês fazerem agora é libertar aos últimos escravos que existem na França, proclame os Direitos da Mulher e empregando os mesmos termos que empregaram vossos pais digam: ‘nós, o proletariado da França (...) decidimos incluir em nossa Carta os direitos sagrados e inalienáveis da mulher’.”

Com seu livro nas mãos ela viajou por toda França propagando suas idéias. Ela buscava também convencer os trabalhadores que a manutenção das mulheres numa condição de indigência dificultava a sua própria luta contra os patrões e o governo. A ignorância das mulheres do povo, escreveu, “tem conseqüências funestas. Sustento que a emancipação dos operários é impossível se as mulheres permanecerem neste estado de embrutecimento”.

Numa carta escrita em 1844 a um amigo, o socialisto utópico Considérant, ela afirmou um tanto desolada: “Tenho quase todo mundo contra mim. Os homens porque peço a emancipação da mulher; os proprietários, porque reclamo a emancipação dos assalariados”. Flora morreu logo em seguida com apenas 41 anos de idade. O seu corpo não resistiu ao ritmo de trabalho que ela mesmo se impôs. Morreu deixando-nos uma das mais belas biografias de uma liderança socialista e feminista do século 19.

Marx, Engels e Bebel

As posições feministas destes socialistas teriam um forte impacto no pensamento de dois jovens revolucionários alemães: Marx e Engels. Ainda nos seus primeiríssimos artigos na Gazeta Renana, em 1842, Marx assumiu a defesa da mulher, particularmente quanto ao direito do divórcio. Rejeitou a idéia predominante de que o casamento deveria ser indissolúvel. Escreveu Saffiotti: “Ao casamento, enquanto conceito, Marx opôs o casamento como fato social e, como tal, ele nada tem de indissolúvel, pois os fatos sociais se transformam, perecem, são substituídos por outros”.

Nas suas obras de transição da juventude para a maturidade, Marx e Engels se interessaram mais diretamente pela questão da opressão da mulher. Esta preocupação já pode ser sentida em A Sagrada Família (1845) e nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos (1844). Nestas obras eles incorporam a idéia-força de Fourier de que “o grau de emancipação da mulher é a medida natural do grau de emancipação geral” e nos Manuscritos de 1844 escreveram: “A relação imediata, natural, necessária dos seres humanos é a relação do homem com a mulher (...) Eis por que, com fundamento nesta relação, se pode aquilatar o grau de desenvolvimento do homem”.

Mas o que os socialistas utópicos, e os jovens Marx e Engels, ainda não sabiam eram quais as bases da opressão feminina e os caminhos mais adequados para superá-la. Seria o materialismo-histórico que lhes permitiria decifrar o enigma da esfinge. O grande passo foi dado com a elaboração conjunta de A Ideologia Alemã (1846) e, posteriormente, do Manifesto do Partido Comunista (1848).

Na Ideologia Alemã, eles já afirmavam: “Esta divisão do trabalho, que implica todas estas contradições e repousa opor sua vez, sobre a divisão natural do trabalho na família e sobre a separação da sociedade em famílias isoladas e opostas umas às outras – esta divisão do trabalho implica, ao mesmo tempo, a repartição do trabalho e de seus produtos, distribuição desigual, na verdade, tanto quanto à quantidade como quanto a qualidade; onde a mulher e os filhos são os escravos do homem. A escravidão certamente muito rudimentar e latente na família é a primeira propriedade, que, aliás, corresponde já plenamente aqui à definição dos economistas modernos segundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outro”.

Assim, o primeiro passo para emancipação – e não o último - seria a incorporação da mulher no trabalho social produtivo. “Para que a emancipação se torne factível é preciso, antes de tudo, que a mulher possa participar da produção em larga escala social e que o trabalho doméstico não a ocupe além de uma medida insignificante”, afirmou Engels.

Este era apenas o primeiro passo, que capitalismo já começava a realizar. A superação definitiva desta opressão milenar se daria através de uma revolução social que transformasse os meios de produção, e a riqueza por eles produzida, em propriedade social. A revolução socialista limparia o terreno para que a libertação da mulher pudesse, finalmente, ser completada.

Sem dúvida, entre os marxistas, Augusto Bebel (1840-1913) foi o primeiro a se debruçar especificamente sobre o problema da emancipação da mulher. Ele publicou o livro "A mulher e o socialismo", em 1879. Dez anos depois, após o fim das leis contra os socialistas, fez uma ampla revisão e atualização do livro. Bebel era operário, autodidata e se tornaria o principal líder político da social-democracia alemã até sua morte em 1913, as vésperas da eclosão da I Guerra Mundial.

A eminente socialista e feminista alemã Clara Zetkin escreveu: “As debilidades teóricas e algumas lacunas científicas deste livro ficam reduzidas a nada se se comparam com sua grande importância histórica”. A principal virtude do livro foi ter se oposto a “equivocada conclusão de que a reivindicação da igualdade das mulheres deveria esperar a atuação de um futuro Estado (...) O principal dirigente do proletariado alemão proclamou a luta pela plena equiparação do sexo feminino como um componente da luta do proletariado e como uma tarefa do presente”.

Bebel reconheceu as especificidades das luta feminista, que permitiria unir as mulheres de várias classes em torno de algumas bandeiras. O conjunto do sexo feminino, escreveu, “sofre duplamente: de um lado sofre debaixo da dependência social dos homens, a qual se suaviza, porém não se elimina com a igualdade formal de direitos diante da lei, e, de outro lado, devido a dependência econômica em que se acham as mulheres em geral (...)”. Por isso, “as irmãs adversárias tem em maior proporção que o mundo masculino (...) uma série de pontos em comum ao qual podem dirigir sua luta (...)”.

No entanto, alertava que, para as socialistas, “não se tratava apenas de realizar a igualdade de direitos da mulher como o homem no terreno da ordem social e política existente, o qual constitui o objetivo do movimento feminino burguês, mas de eliminar todas as barreiras que fazem que o homem dependa do homem e, portanto, um sexo ao outro (...) Daí que quem persiga a solução total da questão feminina deve se unir a quem tem inscrito em sua bandeira a solução da questão social e cultural para toda humanidade, ou seja, os socialistas”.

Nem todos desposavam as opiniões avançadas de Bebel. Vários socialistas alemães eram contra colocar no programa partidário o voto feminino e a inclusão das mulheres no mundo do trabalho assalariado. Os Lassalianos, por exemplo, inverteram as teses dos socialistas utópicos ao afirmaram: “A situação da mulher só pode melhorar se se melhorar a situação do homem”.

Na sua história do movimento operário alemão, Eduard Bernstein descreveu uma assembléia da social-democracia berlinense que, em 1866, “superou o dilema teórico transferindo a emancipação da mulher ao Estado socialista do futuro e estigmatizando as aspirações ao trabalho feminino na indústria, já que as considerava um meio dos capitalistas conseguirem força de trabalho a preços mais baratos”.

Mesmo a corrente vinculada à Marx e Engels no interior da social-democracia alemã não seguia as indicações de seus mestres. O programa socialista de Eisenach (1869), elaborado por Wilhelm Liebknecht, estipulava apenas a necessidade de se conquistar o “sufrágio universal, direto e secreto concedido a todos os homens de mais de 20 anos”. O Programa de unificação entre lassalianos e marxistas, ocorrido em Gotha (1875), por proposta de Bebel, estabeleceria a bandeira: “Sufrágio universal, direto, secreto e obrigatório para todos os cidadãos com pelo menos 20 anos”. O fato de estar escrito apenas cidadão e não “cidadão e cidadã” deu margem à interpretações dispares.

A dúvida só foi resolvida quando, finalmente, o Programa de Erfurt (1891) estabeleceu explicitamente que o Partido social-democrata alemão deveria lutar “por direitos e deveres iguais de todos, sem exceção de sexo ou de raça” e pelo “sufrágio universal igual, direto e secreto para todos os membros do império com mais de vinte anos, sem distinção de sexo, em todas as eleições”. Por fim, propugnava a “abolição de todas as leis que, do ponto de vista do direito (...) colocam a mulher em estado de inferioridade em relação ao homem”.

Clara Zetkin: feminismo e revolução

Clara Zetkin (1857-1933) foi a primeira grande líder feminina (e feminista) do movimento socialista alemão e internacional. Em 1891 passou a ser redatora do órgão de imprensa feminina da social-democracia alemã, considerado o jornal feminista de maior influência na história. Em 1896 apresentou o seu famoso informe sobre a questão da mulher no Congresso do Partido em Gotha.

Neste congresso é possível observar ainda uma visão estreita sobre a questão da mulher, que seria superada posteriormente. Ali ela afirmou: “O princípio-guia deve ser o seguinte: nenhuma agitação especificamente feminista, apenas agitação socialista entre as mulheres. Não devemos por em primeiro plano os interesses mais mesquinhos do mundo da mulher (...) Nossa agitação entre as mulheres não incluem tarefas especiais”.

Em 1907 ocorreu, em Stuttgart, um congresso da Internacional Socialista. Nele Zetkin apresentou uma proposta de resolução que afirmava: “Os partidos socialistas de todos os países tem o dever de lutar energicamente pela conquista do sufrágio universal feminino (...) direito que deve ser reivindicado vigorosamente em todos os lugares de agitação e no parlamento”.

Neste conclave Zetkin, com o apoio de Lênin, combateu os socialistas austríacos e ingleses que tergiversavam na sua propaganda do sufrágio universal feminino. Eles defendiam uma tática gradualista na qual primeiro deveria ser garantido o voto masculino. Zetkin achava que neste ponto não poderia haver qualquer concessão e acabou sendo vitoriosa.

Mas na sua justificação sentiu necessidade de esclarecer que o “reconhecimento do direito de voto ao sexo feminino não suprime a contradição entre exploradores e explorados (...) Para nós socialistas, o direito de voto das mulheres não pode ser o objetivo final, diferentemente das mulheres burguesas, porém consideramos a conquista deste direito como uma etapa bastante importante no caminho que levará até o nosso objetivo final”. No congresso internacional ocorrido em 1910, em Copenhague, defenderia a realização de um dia internacional das mulheres.

Apesar das resoluções aprovadas nos seus congressos, a social-democracia não colocou no centro de sua ação a luta pelos direitos sociais e políticos das mulheres. Zetkin fazendo um balanço crítico a respeito da ação socialista escreveu: “A II Internacional tolerou que as organizações inglesas afiliadas lutassem durante anos pela introdução de um direito de voto feminino restrito (...) permitiu também que o Partido social-democrata belga e, mais tarde, o austríaco se negassem a incluir, nas grandes lutas pelo direito ao voto, a reivindicação do sufrágio universal feminino (...) que o Partido dos socialistas unificados da França se contentasse com platônicas propostas parlamentares para a introdução do voto da mulher (...) A II Internacional nunca criou um órgão que promovesse em escala internacional a realização dos princípios e reivindicações a favor das mulheres. A formação de uma organização internacional das mulheres proletárias e socialistas para uma ação unitária e decidida nasceu a margem de sua organização, de forma autônoma”.

Zetkin foi uma das poucas, ao lado de Rosa de Luxemburgo, a romper com a direção reformista do Partido Social-democrata alemão, após a eclosão da I Guerra Mundial, e a ajudar a organizar o Partido Comunista. Foi eleita membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista e presidente do Socorro Vermelho, organização mundial de solidariedade às vítimas da reação e do fascismo. Quando Hitler assumiu o poder ela era deputada comunista no Reichstag e teve que se exilar na URSS, onde veio a falecer ainda em 1933. Seu corpo foi enterrado nas muralhas do Kremlin ao lado dos heróis da revolução.

Bibliografia
 
- Alambert, Zuleika, Feminismo: o ponto de vista marxista, Ed. Nobel, S.P., 1986.
 
- Álvares, José Gutiérrez – Mulheres Socialistas, Editorial Hacer, Barcelona, 1986

- Bebel, August – La mujer y el socialismo, Akal editor, Espanha, 1977
 
- Engels, F. – Do socialismo utópico ao científico, Ed. Global, SP, 1981.

- Marx, Engels e Lênin, Sobre a Mulher, Global editora, S.P., 1980.

- Saffioti, Heleieth I. B. – A mulher na sociedade de classe, Ed. Vozes, Petrópolis, 1976.

- Sullerot, Evelyne – Historia y sociología del trabajo femenino, Ed. Península, Barcelona, 1970.

- Zetkin, Clara – La cuestión femenina y la lucha contra el reformismo, Ed. Anagrama, Barcelona, 1976.

A intervenção imperialista na Líbia é inaceitável


A crise na Líbia entrou há vários dias numa fase em que já não se pode designá-la como tal, nem mesmo como uma crise do Norte da África. Ganhou o status de grave problema internacional. Rufam os tambores de guerra e os imperialistas já não escondem que são frenéticos os preparativos para cometer mais uma agressão a um país soberano.

Por José Reinaldo Carvalho*

Com o passar dos dias, algumas mentiras vieram à tona. O que se tentou apresentar como “revolução” – a partir de uma legítima manifestação popular por democracia e direitos sociais reprimida pelo governo líbio, em mais uma de muitas atitudes condenáveis do regime de Kadafi – afigurou-se de fato como uma contrarrevolução.

Num curto lapso de tempo, as manifestações pacíficas deram lugar a enfrentamentos armados entre forças leais a Kadafi e uma assim chamada oposição, mescla de grupelhos arrivistas, monarquistas e facções dissidentes do regime, com o aval das potências imperialistas – EUA e União Europeia - e o histérico apoio propagandístico da mídia.

No Brasil, os principais jornais impressos e os noticiários de televisão fazem apelos constantes à “rebelião”, “insurreição” e, com a ajuda de uns poucos trotsquistas, até à “revolução”.

São espécies de edições pioradas de Catão, aquele político e militar que, a cada sessão do Senado Romano, pronunciava a frase que ficou célebre como a “Delenda Cartago”: “Cartago tem que ser destruída”, bordão surrado do império, para liquidar o povo cartaginês, que habitava o território onde se situa a atual Tunísia, povo que teimava em ser independente e foi o solo onde nasceu um dos maiores gênios militares da Antiguidade, Aníbal, cujas tropas infernizaram as legiões romanas. Agora a “delenda” diz: “A Líbia tem que ser destruída”.

Tem sido assim a saga dos imperialistas no mundo contemporâneo – enfrentar uma, duas ou mais “Cartagos” por década, o que faz através de sanções, golpes, bloqueios e ataques brutais, com milhões de mortos. No início dos anos 1990, sob Bush , pai, era o Iraque o principal alvo do império. O “democrata” Clinton deu prosseguimento à campanha para estrangular o regime de Saddam Hussein, o que se consumou em 2003 com a segunda guerra do Iraque, sob o comando de George W. Bush.

As táticas políticas e militares não se diferenciavam das que propõem agora: sanções na ONU, embargos de diversos tipos, exclusão aérea. Os pretextos eram os mesmos: deter a crise humanitária, fazer respeitar os direitos humanos, punir um ditador sanguinário. Os meios, os de sempre: propaganda maciça através dos veículos de comunicação, uníssonos quando se trata de demonizar um adversário do império ou alguém descartável, tergiversar, mentir. A desfaçatez é tamanha que o fazem encobrindo ou perdoando os crimes do império.

Depois tivemos a Iugoslávia, país dilacerado por guerras fratricidas entre as nações que a compunham, incitadas de fora, e finalmente golpeado no coração, quando o imperialismo norte-americano e a União Europeia fizeram a razia dos bombardeios sobre Belgrado em 1999.

A primeira década do novo século conheceu uma “Cartago” bem mais próxima de nós: a Venezuela de Hugo Chávez, tantas vezes no alvo de intentonas golpistas, ameaças de invasão e armadilhas visando ao magnicídio. Já conhecemos esse roteiro macabro. Saddam e Milosevic, como se sabe, foram assassinados.

Este ano assinala a passagem do cinquentenário da tentativa mais séria do imperialismo norte-americano, mancomunado com a contrarrevolução interna, de atacar seu mais incômodo alvo, a Revolução Cubana, a poucas milhas de sua fronteira. Nestas cinco décadas, sucessivos presidentes dos EUA tiveram a ilusão, seguida de decepção, de invadir a ilha e matar seu principal líder, Fidel Castro.

Voltando aos acontecimentos no norte da África, a situação se tornou mais complexa nos últimos dias porque, diferentemente do momento em que a crise se iniciou, quando se anunciava a queda iminente de Kadafi, o fato é que este se encontra em plena ofensiva contra os rebeldes e, se não retomou plenamente o controle da situação, já deu sobejas demonstrações de que não cairá tão facilmente, a não ser com a intervenção estrangeira armada, bombardeios maciços e ocupação territorial.

Conclusão óbvia dos imperialistas: invadir a Líbia. A complicação é que os Estados Unidos não podem fazer isso sozinhos. Precisam desesperadamente do aval e da participação direta da “comunidade internacional”. Os entendimentos estão a pleno vapor. A Otan, de prontidão. Falta o aval da ONU para dar ares de ação “multilateral”.

Atenção. Em muitas chancelarias elaboram-se argumentos “técnicos” para a eventualidade da intervenção estrangeira: “se a ONU autorizar apoiamos a intervenção", dizem essas chancelarias. Não será uma operação fácil para a diplomacia norte-americana, conduzida pela Sra. Clinton, que nada fica a dever em truculência à sua antecessora, obter a unanimidade no Conselho de Segurança. Mas, como há precedentes (primeira guerra do Iraque), é preciso estar em guarda. Em 1999, na Iugoslávia, a ONU não foi acionada, mas como os bombardeios foram executados pela Otan, o imperialismo estadunidense e seus aliados euro-atlânticos exibiram seus crimes de lesa-humanidade como ação coletiva. A secretária de Estado norte-americana da época alcunhou sua política externa como “multilateralismo assertivo”.

Porém, resoluções baseadas em pressões, chantagens, negociações secretas entre interesses escusos, nunca serão a expressão legítima de uma ordem pluripolar praticando o multilateralismo, mas o resultado da instrumentalização dos organismos internacionais. Não pode haver ordem multipolar sem o decidido combate ao imperialismo.

Sejam quais forem os argumentos e a cobertura jurídica e diplomática, a intervenção imperialista na Líbia é inaceitável.

*Secretário Nacional de Comunicação do PCdoB e editor do Vermelho

sábado, 5 de março de 2011

O governo corta o orçamento mas não mexe nos juros


Ao anunciar cortes no orçamento de 50 bilhões de reais, o governo sinalizou para o chamado “mercado” (isto é, os grandes financistas que extraem ganhos monumentais da dívida pública) a opção por uma política econômica para atender a seus interesses. 


O ministro da Fazenda Guido Mantega tem se esforçado em dizer que não se trata de um ajuste fiscal à moda neoliberal, mas de um acerto orçamentário para amenizar os gastos feitos pelo governo em 2009 e 2010 no enfrentamento da crise financeira mundial, cujo êxito foi o pequeno reflexo da crise no Brasil.

A opinião do ministro tem, neste particular, uma importância apenas relativa. O fato concreto é a combinação das medidas tomadas pelo núcleo econômico do governo. O corte orçamentário faz parte do mesmo movimento de esfriamento da economia que inclui por um lado a recusa em negociar com as centrais sindicais um valor mais alto para o salário mínimo e, por outro lado, a continuidade da elevação da taxa básica de juros.

Pode não ser o receituário neoliberal completo, mas são medidas que fazem parte dele e que o país, para avançar, precisa discutir em profundidade e recusar o permanente privilégio dado pelo governo aos grandes investidores do mercado financeiro. 

Um cálculo feito pelo economista Márcio Pochmann mostrou que apenas 20 mil famílias de super-ricos são beneficiadas por 70% dos juros pagos pelo governo. No ano passado, o volume destes juros chegou a 200,5 bilhões de reais e isto significa que 140 bilhões foram parar nos cofres desta minoria que está montada no topo da riqueza brasileira e, sendo credora do governo, faz com que, na prática, trabalhadores e empresários do setor produtivo trabalhem para ela.

Mesmo assim, comentaristas econômicos reagiram com descrédito ao enorme corte orçamentário anunciado ontem (dia 28): dizem que o corte real chegará a 13,1 bilhões, e os demais 37 bilhões se referem a intenção de gastos, isto é, a despesas programadas mas que não serão concretizadas . Ou seja, querem mais. É o dogma neoliberal que a equipe econômica diz rejeitar mas que respeita e aplica: o ato de fé segundo o qual o governo precisa diminuir seus gastos para manter a economia em ordem.

A análise conservadora, partilhada pela área econômica, examina o orçamento de maneira parcial e incompleta, levando em conta apenas a receita e as despesas classificadas como primárias, e entram em pânico quando os gastos se aproximam dos ganhos. Não analisam o orçamento de forma completa, incluindo entre as despesas o montante pago em juros. Ao contrário, insistem no respeito ao superávit primário (o dinheiro que o governo economiza para pagar juros). Nesta linha, apontam o dedo para os gastos na área social, previdenciária, na manutenção da máquina pública, em investimentos para alavancar a economia. E escondem os valores consumidos pelos juros.

Daí a exigência de cortes cada vez maiores. Mas há uma pergunta que os trabalhadores e os setores produtivos precisam fazer: por que o governo não inclui, em suas metas de corte, parte dos juros pagos ao capital privado que vampiriza a dívida pública e, por tabela, a economia nacional? Precisam exigir que a equipe econômica responda a esta pergunta – e esta resposta é uma condição fundamental para aprofundar o rumo do crescimento econômico e da distribuição de renda. Os cortes anunciados afetam o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o programa Minha Casa Minha Vida e até o seguro-desemprego. Se forem considerados, como exemplo, apenas os ministérios das Cidades, Transportes, Educação, Esportes e Defesa, a economia forçada envolve 20 bilhões de reais – uma quantia que não precisaria ser cortada se o governo tivesse a coragem de fazer um corte moderado, de apenas 10%, nos juros pagos em 2010.


Editorial do Portal Vermelho.
domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amazonas tem perfil parlamentar publicado em livro pela Câmara


A Câmara Federal acaba de disponibilizar em seu acervo eletrônico e lançará oficialmente em 23 de março também na versão impressa mais um título da série “Perfis parlamentares”. Desta vez, o destaque é João Amazonas. O dirigente histórico do Partido Comunista do Brasil foi deputado constituinte em 1946, exercendo o mandato até a cassação do partido em 1947. Organizado pelo jornalista Pedro de Oliveira, o livro tem a apresentação do deputado Aldo Rebelo e prefácio do senador Inácio Arruda.

Conforme destacou Pedro de Oliveira, este perfil parlamentar procura resgatar as contribuições de João Amazonas não somente no âmbito do Congresso Nacional, mas também na esfera do movimento social, intelectual e político brasileiro. Amazonas teve a maior parte de sua vida marcada “pela perseguição ininterrupta de governos arbitrários e ditatoriais. Conquistados os períodos preciosos de liberdade, entretanto, suas atividades puderam ser acompanhadas de perto, como o foram durante meados dos anos 40 do século passado, quando da Constituinte de 1945, e depois a partir de 1985, com a redemocratização do país”.

O processo para a realização do livro durou sete anos e consistiu no processo de levantamento dos discursos realizados no plenário do Congresso Nacional quando da discussão da Constituinte de 1945, além de uma biografia escrita pelo historiador Augusto Buonicore e textos assinados por Renato Rabelo (presidente do PCdoB), José Carlos Ruy (jornalista e editor do jornal comunista Classe Operária) e Adalberto Monteiro (secretário de Formação do PCdoB e presidente da Fundação Maurício Grabois).

A publicação será enviada para bibliotecas públicas e outros centros de referência para estudo e pesquisa a respeito da história política do Brasil. O lançamento nacional está programado para o dia 23 de março próximo, no Salão Nobre da Câmara dos Deputados, em Brasília, às 17 horas. Na mesma ocasião serão comemorados os 89 anos de vida ininterrupta do mais antigo partido político nacional em funcionamento no país, que é também o mais jovem por sua composição social e por suas ideias: o PCdoB.

Síntese de uma vida

Homem da política, das ideias e das lutas sociais, João Amazonas atuou em diversas frentes para a construção de um país mais justo e soberano, caminho brasileiro para o socialismo. Além de ideólogo do comunismo e de ser um dos pilares da construção partidária, Amazonas esteve na Guerrilha do Araguaia (1972-1974), foi parlamentar e um dos articuladores da candidatura de Lula à Presidência da República.

No prefácio, o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) destaca: “O nome de João Amazonas lembra de imediato a palavra que é a síntese de toda a sua vida: comunista, não apenas no sentido ideológico, mas significando também um compromisso com uma visão de mundo e de sociedade”.

Mais adiante, acrescenta: “sou testemunha de que João Amazonas foi o artífice da necessária unidade das forças progressistas e avançadas na direção de um projeto político e social de caráter emancipatório para o povo brasileiro. Pacientemente, ele construiu, convenceu, dirimiu dúvidas daqueles mais incrédulos da possibilidade da construção de um novo rumo para o Brasil, com soberania e desenvolvimento nacional”.

Um dos destaques feitos na publicação é o fato de Amazonas, especialmente como parlamentar, ter dedicado suas ações sempre aos trabalhadores e à melhoria do povo brasileiro. Como constituinte, apresentou 17 emendas ao projeto de Constituição, “entre elas a que fixava a jornada de trabalho num máximo de oito horas diárias, instituía o direito irrestrito de greve e a efetiva liberdade de organização sindical, e aperfeiçoava a já arejada legislação trabalhista com inovações voltadas para a higiene e a segurança no ambiente de trabalho”, destaca a apresentação assinada pelo deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

Quando deputado, Amazonas era um dos 15 comunistas na Casa, que tinha então 320 deputados. O partido contava, também, com um senador: Luis Carlos Prestes. Amazonas foi eleito pelo Distrito Federal (no então estado da Guanabara, hoje Rio de Janeiro) com 18.379 votos, número expressivo para a época.

Ao contextualizar aquele período, Rebelo anota: “Mesmo a conservadora redemocratização operada naquele período serviu de estuário para que os comunistas, empolgados com a vitória dos Aliados contra o eixo do nazifascismo, se empenhassem em alargar as bases das liberdades democráticas. Getúlio Vargas fora deposto, mas as instituições e os tiranetes do Estado Novo, a começar do então presidente Eurico Dutra, prolongavam sua sobrevida autoritária e limitavam as lutas populares. Sindicatos eram tomados pelo Ministério do Trabalho, grevistas espancados nas fábricas, comunistas sequestrados no meio da noite para sofrer torturas em lugares ermos, e até a comemoração do Dia do Trabalhador, internacionalmente uma data de festa e de lutas, era tirada das ruas e confinada a auditórios fechados”.

Finalizando sua apresentação, Aldo destaca: “João Amazonas viveu para ver o Brasil redemocratizado e os comunistas integrados ao esforço de construção da pátria independente, da pátria democrática, da pátria justa para seus filhos, caminho para a pátria socialista com que sonhou e para a qual viveu e lutou”.

Para acessar o livro, clique aqui.

Fonte: PCdoB

Busca

Perfil

Minha foto
Ex-diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e ex-presidente da União da Juventude Socialista (UJS) de Alagoas. Atual militante e presidente do Comitê Municipal de Maceió do Partido Comunista do Brasil, PCdoB.
Tecnologia do Blogger.

Seguidores